domingo, 5 de maio de 2013

Artigos de Opinião | Ludo Martens - Tian An Men | 1989 | Do Desvio Revisionista à Revolta Contra-Revolucionária (I)




Seis meses antes dos acontecimentos de Timisoara o mesmo se passou em TianAnMen. Os meios de comunicação do mundo “livre” mostraram ao mundo a sua fisionomia macabra no momento da entrada em cena das “ossadas dos 4.630 cadáveres horrivelmente mutilados” em Timisoara, havendo já demonstrado o seu compromisso político com a contra-revolução, nos eventos da Praça TianAnMen em Maio e Junho de 1989. Na noite da intervenção do Exército Vermelho[1], imagens de televisão mostraram-nos que os tanques chineses reprimem as centenas de estudantes pacíficos na Praça TianAnMen. Em 5 de Junho, a Amnistia Internacional, máquina especializada em fabricar mentiras no que respeita à luta nacionalista e aos países socialistas, divulgou os números de, pelo menos, 1.300 mortos, mais alguns estudantes esmagados por tanques sanguinários enquanto dormiam tranquilamente nas suas tendas.

Domingo, 5 de Junho, um trabalhador comunista numa grande fábrica de automóveis gravou imagens em vídeo. “Esta noite revi essas imagens, por pelo menos vinte vezes. Cheguei à conclusão que os comentários dos jornalistas eram falsos e que nas imagens não se vê ninguém ser esmagado pelos tanques.” Mais tarde, a Amnistia Internacional reconheceu que se "equivocou”. Contudo, quantas pessoas, traumatizadas pela verdade sobre o comunismo chinês, “que espezinha impiedosamente os seus estudantes pacifistas sob os passos dos seus tanques”, transmitida por estes violentos defensores dos direitos humanos, sabia desta mentira?

Um ano depois dos acontecimentos de TianAnMen dispomos de suficiente informação fiável para elaborar uma analise de classe objectiva. No entanto, para entender os interesses políticos e econômicos protegidos pelo “movimento pela democracia”, de Abril a Junho de 1989 em Pequim, nós encontramos três fenómenos negativos que se vão desenvolvendo entre 1979 e o ano fatídico de 1989.

A ascensão do capitalismo e do revisionismo na China


Economia: o regresso dos Patrões

Falemos primeiro da esfera económica. Os dez anos de reforma de Deng Xiaoping contribuíram para um progresso material inegável. Porém, também vão aumentando a influência do capitalismo e do imperialismo na China, aumentando a base económica das novas classes sociais que aspiravam a uma contra-revolução. A liberalização e a abertura das forças do mercado impulsionaram forças económicas que se opõem ao socialismo e que, mais cedo ou mais tarde, se lançariam numa luta pelo poder. Aconteceu assim com o suposto “movimento pela democracia” na Praça TianAnMen.

A entrada do imperialismo

De acordo com a Beijing Information, a China havia concluído no final de 1988 cerca de 16.325 ofertas de importação de capital estrangeiro num total de 79,2 mil milhões de dólares. Deste montante recebeu empréstimos de 33 milhões de dólares e 11,5 milhões de dólares em inversões directas. Os maiores investidores são Hong Kong, com 8 milhões de dólares, o Japão com 2 mil milhões e os Estados Unidos com 1,7 milhões[2]

Com os investimentos estrangeiros, os ideais económicos do imperialismo mundial entraram na China. Assim, a 12 de Setembro de 1988, Zhao Zhiyang, deu as boas vindas a Milton Friedman[3] e elogiou as suas ideias económicas. Lee Iaccoca, o presidente da Chrysler, ministrou a conferência sobre o espírito empresarial no Salão da Assembleia do Povo[4]. Segundo a agência de noticias chinesa, a Comissão para a Reforma do Sistema Económico celebrada no final de 1988: “No marco da reforma económica da China, não há nada que não esteja aberto à participação estrangeira, como o estudo da transformação do sistema económico”. No decorrer desse ano, a Comissão ouviu a opinião de 1.500 especialistas estrangeiros, e concluiu que podia “aprender muito do desenvolvimento económico do Ocidente”. Para a China foram enviados os especialistas ocidentais, especialmente no campo das finanças, no âmbito da gestão empresarial, da formação de preços, da política de inversão e do controlo da inflacção. Os seus pontos de vista “apontaram uma contribuição positiva tanto prática como teórica para a reforma económica”[5].

A influência ideológica do Ocidente

Durante os últimos dez anos, dezenas de milhares de estudantes chineses estudaram nos Estados Unidos. O Partido Comunista da China estendeu o culto aos logros tecnológicos dos Estados Unidos e à sociedade de consumo norte-americana. As consequências negativas não se fizeram esperar. Centenas de milhares de intelectuais começaram a ouvir as rádios do imperialismo: A Voz da América e a BBC.

Um jornal ligado ao governo dos EUA, escreveu em relação ás manifestações em Pequim: “os participantes do movimento estudantil comunicavam-se com os seus colegas da América do Norte e Europa por telefone, fax e correio electrónico. O número de chamadas telefónicas entre os EUA e a China triplicou no mês de Maio”.[6]

Li Shaomin, um ex-guarda vermelho e ex-aluno de Pequim, médico da Universidade de Princeton nos EUA, que agora trabalha para a AT & T., tem uma posição que é muito semelhante à de muitos chineses que estudaram no Ocidente. “Muitos intelectuais chineses, incluindo eu, temos chegado a considerar a Formosa como um modelo para a reforma económica na China. (...) A propriedade privada e o mercado-livre são os fundamentos da liberdade política. (...) As instituições capitalistas proporcionam a prosperidade e a liberdade, as instituições comunistas, a pobreza e o caos. (...) Com a Formosa como exemplo, a República Popular da China é mais propensa que outros países comunistas a refutar a doutrina marxista e a realizar as reformas." É por isso que Milton Friedman disse: “Eu sou mais optimista a respeito da China que da União Soviética. Os chineses têm este grande recurso da China de fora. O êxito dos chineses em Hong Kong, Singapura, Formosa, criou na China uma inspiração que o exemplo da Polónia, Hungria ou Jugoslávia não pode dar à União Soviética.” Segundo um inquérito, levada a cabo por Li Shaomin a 607 estudantes chineses nos Estados Unidos, 90% manifestavam-se favoráveis à supressão das referências ao marxismo-leninismo e à liderança do Partido Comunista na Constituição e 86% disseram que a China tinha que se basear na experiência da Formosa, 60% estavam a favor de uma economia liberal ao estilo da Formosa[7].

O desenvolvimento de uma burguesia na China

Uma política razoável para um desenvolvimento limitado de um sector capitalista na China saiu do controlo, terminando numa maré selvagem de capitalismo privado. Segundo as estatísticas oficiais, em 1988, 22% do investimento imobiliário foi realizado pelo sector privado num valor de 100 mil milhões de yuanes, um aumento de 25% em relação ao ano anterior. O valor da produção industrial no sector privado registou um aumento de 46% nesse mesmo ano, a produção das empresas rurais, com características muito próximas de uma empresa privada, incrementou-se em 35%.[8]

A publicação Far Eastern Economie Review estimou que em 1988, 37% da produção industrial havia caído no controlo de sectores privados, uma percentagem que tenderia a passar dos 50% em 1993[9]. A Business Week, por seu lado, saudou, no momento em que os actos tinham lugar em Pequim, “o aparecimento de novas empresas prósperas na China. (...) As empresas privadas por meios não autorizados para levantar dinheiro. (…) A nova China está a asfixiar a China tradicional no domínio dos capitais”[10].

As forças por detrás do movimento “democrático”

O imperialismo e o capitalismo, muito presente no sector económico chinês, sustentaram o movimento, supostamente, democrático dos estudantes e dos “reformadores” do núcleo de Zhao Ziyang, com o objectivo de criar uma força política legal. Em Maio de 1989, a Business Week, escreveu: “Muitos homens de negócios estrangeiros na China apoiam os reformadores na ideia de um passo maior de liberdade na política só poder fortalecer a longo prazo, o comércio”[11]. O diário The Guardian assinalou: “é interessante observar que alguns apoios aos pontos de vista pró-democráticos provinham dos novos empresários ricos”[12]. Far Eastern Economie Review notava, sempre na mesma época de Maio de 1989: “O mundo dos negócios de Hong Kong é favorável ás solicitações dos estudantes para mais reformas e mais democracia. Os magnatas de Hong Kong, Li Kashing, Yk Pao e Stanley Ho expressaram publicamente o seu apoio. A pressão para uma abertura política podia, segundo eles, ser muito positiva para o futuro do capitalismo na China”[13].

Política: a alavanca da democracia burguesa

O segundo fenómeno que marcou a evolução da China entre 1979 e 1989 encontra-se no campo político, que viu o aparecimento de uma nova força contra-revolucionária. No momento em que China apostou no desenvolvimento de um sector capitalista e na introdução de multinacionais, vimos surgir no âmbito político, as primeiras forças anti-socialistas. Em 1979, Pequim vê como no “muro da democracia” se plasmavam todos os tipos de tendências anti-comunistas. A 9 de Março de 1979, um famoso mural anunciava “lutamos para que a China cumpra com os verdadeiros direitos humanos e a verdadeira democracia”, mostrando assim as bandeiras de baixo das quais os comunistas marchariam nas próximas décadas. Com efeito, os “direitos humanos” e as palavras “democracia” são utilizadas pelo imperialismo para ocultar a mercadoria ideológica que põe à venda. Os principais pontos do programa que lançou este jornal são os seguintes: Em primeiro lugar, “Apoiamos o estudo da cultura e da civilização inspirada pelo espírito de Cristo, nós propomos tomar o exemplo dos sistemas democráticos baseados nos ensinamentos do cristianismo”. Depois “reclamamos o abandono das noções antiquadas de Mao Tsé-Tung, para reformar os princípios do marxismo, que não estão de acordo com a realidade e a abolição da luta de classes.” Em terceiro lugar, “pedimos que o Partido Comunista, que é ele do próprio Mao Tsé-Tung, seja o Partido de todo povo.” E, por último, “chamamos o Partido Comunista Chinês e o Kuomintang a colaborarem de novo nas novas condições históricas”[14].

Wei Jing-Sheng, o pequeno Le Pen chinês

Wei Jing-Sheng é o homem que, entre 1978 e 1979, sustentou com maior força as concepções políticas do imperialismo. Conquistou certa fama na direita ocidental dizendo que a China necessitava de uma quinta modernização: a democracia. O que se esconde na palavra “democracia” é evidente quando uma pessoa se presta ao sacrifício de ler o programa de Wei.

Estas são as suas teses: “as democracias burguesas ocidentais permitem que os cidadãos possam expressar a sua vontade através das eleições e decidir o futuro do país (...) Esta é a razão pela qual nenhum político burguês pode ignorar as opiniões das pessoas sobre qualquer tema. (...) A base económica sobre a qual se mantiveram os governos democráticos é o sistema da empresa livre. (...) No Ocidente, os trabalhadores poderiam enviar delegados operários aos conselhos de administração, ocupando ali a metade dos postos. (...) Na rivalidade que opõe capital e trabalho, os trabalhadores estão, de facto, em melhores condições num sistema onde a maioria pode decidir a política. (...) Faço um apelo aos que pensam assim para se porem do lado desta bandeira da democracia. O socialismo marxista é, sem excepção, uma ditadura anti-democrática. (...) Temos que canalizar a nossa ira contra esse sistema de justiça criminoso que trata o povo desta forma tão escandalosa”[15].

Os estudantes contra o socialismo

Estas ideias contra-revolucionárias, defendidas em 1979 por Wei e um pequeno círculo de amantes do imperialismo, encontraram um crescente eco entre os intelectuais nos anos posteriores. As causas são muitas. O Partido Comunista terminou praticamente com a educação marxista-leninista entre os estudantes. Deixou de lutar contra as concepções políticas do imperialismo. O liberalismo, a corrupção e o enriquecimento ilícito estenderam-se entre algumas facções do partido.

Quando, entre 1985 e 1986, um movimento estudantil se desenvolveu nas grandes cidades chinesas, “as emissões de A Voz da América desempenharam um papel determinante”, como confirmaria um jornalista norte-americano expulso da China por actividades de espionagem[16]. Por ocasião destas primeiras acções estudantis, o professor Fang Lizhi declarou que a China tinha que abandonar o marxismo, antiquado e de segunda mão. Wag Ruowang reclamou uma “reavaliação completa do desastre criado por Mao Tsé-tung”. Lui Binyan denunciou “a ditadura feudal-fascista” do Partido Comunista e afirmou que o capitalismo era superior ao socialismo[17]. Tais afirmações encontraram um grande eco na facção dos estudantes e intelectuais que tinham como modelo as elites dos países imperialistas e neo-coloniais.

Durante os anos 1987 e 1988, estes elementos, alimentados diariamente pelas emissões de A Voz da América, podiam difundir amplamente as suas ideias nas universidades: o Partido não fazia ali nenhum trabalho político digno desse nome.

No ano de 1988, os núcleos contra-revolucionários prepararam acções de massa para celebrar os três aniversários que deviam brilhar no ano seguinte: o 70º aniversário do Movimento Quatro de Maio[18], o 200º aniversário da Revolução Francesa e o 40º aniversário da Revolução Chinesa. Assim, a 6 de Janeiro de 1989, Frang Lizhi escreveu uma carta a Deng Xiaoping em que mencionava estas três festas e pedia que estes acontecimentos fossem celebrados com a libertação de Wei Jing-Sheng, indicando com claridade a plataforma política com a qual pensava actuar. Seguindo Fang, 33 intelectuais repetiram numa carta aberta a reivindicação da libertação de Wei. Entre os assinantes, Su Shaozhi, que foi um alto funcionário, até 1987, do Instituto de Marxismo-Leninismo e do Pensamento Mao Tsé-Tung. Em princípios de Março de 1989, 42 personalidades dos meios científicos e académicos, entre os quais se encontravam vários membros da Assembleia Popular, assinaram outra carta aberta também exigindo a libertação de Wei. Esta maré de cartas, orientada sobre Wei e suas ideias políticas, suscitaram muitas discussões entre os estudantes. Foi assim que começou a preparação politica do protesto de Abril e Maio de 1989.

O Partido ás vésperas da ruptura

O terceiro fenómeno foi fundamental no surgimento do movimento de Pequim: a divisão interna do Partido Comunista da China e o crescimento de uma facção revisionista muito influente.

Hu e Zhao, a dupla revisionista

Hu Yaobang, nomeado secretário-geral do Partido em 1982, foi o representante mais destacado desta corrente. Em 1981, o seu grupo denunciou “a teoria segundo a qual as classes e a luta de classes existem durante todo período socialista, existindo burguesia no interior do Partido Comunista”[19]. Quatro anos mais tarde, Hu declarou: “tomá-mos a decisão de não utilizar a partir de agora a expressão elemento anti-partido e anti-socialista”[20]. Hu assegurava, com estas teses, a tranquilidade aos elementos podres, aos burocratas, aos corrompidos e aos revisionistas. Em 1988, Hu foi substituído por um dos seus cúmplices na facção revisionista, Zhao Zhiyang.

Para assinalar a viragem ideológica, a Beijing Information escrevia em 1988: “Kruschev conheceu um ressurgimento de popularidade na China”. E: “Stálin foi um ditador, um absoluto revolucionário”. Houve um apogeu das traduções para o chinês da literatura anti-stalinista publicada nesses últimos anos da URSS, entre as quais figuravam as memórias do professor de Stálin. Quando alguém começa a denegrir Stálin é necessário entender a verdadeira mensagem que pretende passar. Assim, o professor Lu Congmig, da Escola do Partido que dependia do Comité Central, aspirava que “a natureza de nossa época mude à medida que se passe da etapa imperialista à do capitalismo social”[21]. É o perigo da negação do imperialismo, tanto para o Terceiro Mundo como para a China! E prosseguia: “o capitalismo desenvolvido pode produzir elementos socialistas e passar ao socialismo de forma pacífica. (...) Tanto a economia socialista como a economia capitalista são economias de mercado socializadas. (...) O capitalismo contemporâneo é um bom modelo para o mercado socializado”. Quando escutamos barbaridades como estas, compreendemos o furor de Mao Tsé-Tung que, em plena Revolução Cultural, criticava as “misturas dos revisionistas e contra-revolucionários”[22]. O professor Lu lança depois um elogio ao capitalismo: “Vemos ali uma mudança da propriedade dos meios de produção, a propriedade social substitui a propriedade privada. Por outro lado, assistimos à participação dos operários na gestão da empresa. O macro-controlo do Estado sobre a economia é, de facto, o principio da economia planificada. A nova repartição das rendas pelo governo e o desenvolvimento da segurança social contribuem para debilitar as diferenças entre ricos e pobres”. Este revisionista apresenta o capitalismo como uma sociedade que já realizou as promessas do socialismo; e depois prevê para a China uma política capitalista como melhor forma de desenvolver o capitalismo...Um curioso parentesco ideológico com Wei, sempre na prisão, que o professor Lu ensina aos quadros superiores do Partido!

A situação torna-se mais grave quando a mesma orientação política é expressa por Zhao Zhiyang, que em 1988 afirma: “o Partido Comunista Chinês vai trabalhar conjuntamente com o Koumintang da China para a reunificação a breve prazo. Os dois lados do estreito (quer dizer, China e Formosa) têm muitíssimo em comum do ponto de vista político, económico e cultural. Ambos desejam a cooperação, o desenvolvimento conjunto da economia nacional, melhorar o nível de vida e uma China próspera, poderosa e moderna”[23]. Esta concepção da convergência entre a China socialista e a Formosa, o reino das multinacionais e do capitalismo selvagem, mostra como estava correcta a observação de Milton Friedman: os grandes capitalistas chineses da Formosa, Hong Kong e Singapura empurram o continente até à restauração capitalista.

O debate no seio do Partido

Para compreender o confronto político de Maio e Junho de 1989 na Praça de TianAnMen é necessário saber que em Janeiro de 1987 começou uma primeira luta importante no seio do Partido Comunista Chinês. O movimento estudantil do ano de 1986, directamente inspirado e dirigido por Fang Lizhi, atacou as bases do socialismo na China. Deng Xiaoping que, até esse momento, seguira firmemente o revisionista Hu Yaobang, mudou então de opinião. Em 28 de Setembro de 1986, declarou: “Em Hong Kong e na Formosa, correntes de opinião procuram lutar contra os quatro princípios fundamentais (o marxismo-leninismo e o pensamento Mao Tsé-Tung, a via socialista, a ditadura popular e a direcção do Partido Comunista) e prevêem a via capitalista para dar a impressão que dessa forma lograremos a modernização do país. De facto, esta liberalização simplesmente nos levaria à via capitalista”[24]. Em 19 de Janeiro de 1988, Po Yipo apresenta, ao bureau político, um relatório em que critica o trabalho de Hu Yaobang. “Hu Yaobang animou os elementos activos que advogavam a liberalização burguesa e adoptou uma posição condescendente e de protecção perante eles. Tudo isto levou directamente a que nos reivindicassem a supressão dos quatro princípios fundamentais e a passagem para uma ocidentalização integral e por um sistema político e económico capitalista”[25].

A queda de Hu Yaobang debilitou o núcleo revisionista na direcção do Partido. Entretanto, Deng Xiaoping nomeou outro representante da mesma corrente, Zhao Zhiyang, como novo secretário-geral.

Porém no curso da luta que leva à queda de Hu, as posições da esquerda do Partido recebem um eco crescente. Chen Yun declarou: “a fonte da liberalização burguesa encontra-se no sector económico. Uma economia planificada é socialista, uma economia de mercado é capitalista e promover uma economia de mercado é promover o capitalismo”[26]. Denunciando a via capitalista, Chen Yu critica também a corrupção que estava associada a ele: “os dirigentes do Partido têm que dar o exemplo ao povo. Devem estar à cabeça da luta pela eliminação da corrupção da classe capitalista e as tendências negativas que provêm da mesma. Muitas empresas são dirigidas por familiares próximos dos dirigentes. Esse é um problema muito grave”[27].

Em 1988, Zhao Zhiyang, o novo secretário-geral, continua a proteger os grupos revisionistas colocados por Hu Yaobang na direcção de certas instituições do Partido, permitindo-lhes, inclusive, estender a sua influência. Em 1986, o colaborador mais próximo de Zhao, Bao Tong, autorizou a criação em Pequim dos Fundos para a reforma e a abertura da China, financiado por Georges Soros, um importante homem de negócios americano[28]. O grupo de Zhao Zhiyang defendia o seguinte ponto de vista, expresso por intelectuais chineses residentes nos Estados Unidos: “acreditamos que uma mudança no sistema de propriedade do Estado não só é uma necessidade histórica, mas também realizável na prática. O nosso projecto é este: organizar um programa global de privatização do sistema da propriedade estatal”[29]. Em Novembro de 1988, Li Yining, professor da Universidade de Pequim e colaborador próximo de Zhao, reafirma: “O objectivo final é a criação de mercados bem geridos, de tipo capitalista, para bens, finanças, trabalho e habitações”[30]. Esta posição é confirmada por outro colaborador de Zhao, Chen Yi-zi: “Zhao estava convencido que uma economia planificada de tipo stalinista não podia fazer avançar a China e que era necessário uma economia de mercado”[31].

É interessante notar um último ponto. No momento das manifestações estudantis, um jornal de Hong Kong escreveu: “Zhao solicitou a uma comissão preparar uma proposição de reforma política que incluísse ideias para uma competência multi-partidária e uma imprensa independente”[32]. O multi-partidarismo na China significa antes de tudo a legalização do Koumintang, o partido fascista no poder na Formosa. No que respeita à imprensa “independente”, dependeria totalmente dos meios financeiros da Formosa, de Hong Kong, e dos Estados Unidos. Porém com a sua opção pelo multi-partidarismo, Zhao é aclamado no Ocidente como um democrata. É precisamente o grupo de Zhao Zhiyang que reclama, em finais de 1988 e princípios de 1989, um “novo autoritarismo” para levar adiante as reformas capitalistas. Reproduzimos o que Zhao disse a Deng Xiaoping a 6 de Março: “Um país sub-desenvolvido que quer modernizar-se tem que passar por uma certa etapa em que precisa do impulso de um governo forte e autoritário”[33]. Está claro: para fazer voltar a democracia burguesa e a liberdade de mercado, faz falta um governo autoritário e capaz de vencer as resistências à restauração capitalista.

Em finais de Dezembro de 1988, a luta entre os revisionistas e os marxista-leninistas conheceu um segundo pico. Uma pessoa próxima de Zhao Zhiyang reuniu trezentos intelectuais num seminário no qual os “reformadores” célebres do Partido, como Yan Jiaqi e Su Shaozhi, tomam a palavra para denunciar as campanhas passadas contra o liberalismo burguês. Os textos, uma impetuosa defesa do capitalismo, são publicados posteriormente no World Economie Herald de Shangai. No seu editorial, o jornal precisa: “há que tomar corajosamente o exemplo das formas democráticas modernas desenvolvidas no capitalismo ocidental”[34]. Esta agitação de direita por parte dos intelectuais reformadores do Partido influiu directamente sobre os meios estudantis da capital.

Chen Yun declarou nesse momento que “toda a frente ideológica está ocupada pela burguesia, não restou nada de proletário”. Wang Zhen e Po Yipo insistem, por três vezes e na companhia de Deng Xiaoping, na necessidade de substituir Zhao Zhiyang do posto de secretário-geral. Em Março de 1989, Li Sien-nien vai a casa de Deng para insistir de novo na necessidade desta demissão, que poderia realizar-se na quarta sessão plenária prevista para as próximas semanas[35]. O movimento estudantil põe-se em marcha em Abril no meio desta luta dentro do Partido Comunista.

O que realmente querem os estudantes de Pequim

Os nossos meios de comunicação contaram-nos que os estudantes de Pequim manifestaram-se por reivindicações democráticas e contra a corrupção, e que de nenhuma maneira queriam derrubar o regime socialista. Como prova até cantavam a Internacional. Pode existir prova mais brilhante de que sob o socialismo a democracia é impossível? Uma camarilha de velhos burocratas, que se sentem superados, destroem com um banho de sangue um movimento inocente e ingénuo.

Toda a direita, desde o PSC (Partido Social-Cristão) até ao VlaamsBlok (VlaamsBelang desde 2004), apresentam-nos está versão. Os trotskistas realizaram uma actividade febril, após a repressão do movimento pró-imperialista, para conseguir que a esquerda belga defendesse os “estudantes”. Reclamaram o apoio de centenas de progressistas numa petição que dizia que os estudantes “exigiam, de facto, uma democracia do socialismo” que também declarava que “o pretexto de que a contra-revolução estava a levantar a cabeça é inaceitável”[36]. Pelo contrário, nós afirmamos que actuando desta forma os trotskistas estavam a comportar-se como verdadeiros agentes do imperialismo americano e do fascismo da Formosa. O leitor julgará se esta acusação é fundamentada ou não.

Uma revolução contra o socialismo

Qual o carácter e a natureza do movimento de Pequim?

Horas depois da intervenção do Exército, a 4 de Junho de 1989, Shaw Yuming, porta-voz do governo da Formosa, declarou: “ainda que algumas pessoas acreditem que este movimento estudantil representa só uma luta no seio do sistema e um movimento revolucionário dirigido contra o Partido Comunista, temos que sublinhar que, se se examinarem bem as coisas, verificamos que o seu lema “democracia ou morte” e o facto de erguer uma estátua da “deusa da liberdade” sobre a Praça TianAnMen, prova de maneira evidente que lutavam por uma democracia de estilo ocidental.”[37] Duas semanas mais tarde, o porta-voz do governo da Formosa informa um jornalista japonês: “senhor Yuan Mu, o porta-voz do governo de Pequim afirmou que os manifestantes procuravam derrubar o regime socialista (...) Dizia a verdade. Certas pessoas, como Frang Lizhi e outros intelectuais, estão perfeitamente conscientes do que exigem. Porém, muitas pessoas pediam só algumas mudanças; não conheciam as implicações lógicas do que reclamavam (...). numa revolução uns são chefes e outros seguidores. Os chefes sabem o que querem, porém os seguidores têm só uma vaga ideia do que fazem. Muitas pessoas que estiveram na Praça TianAnMen pensavam que pediam só algumas mudanças, contudo não sabiam que se tratava de uma revolução para sair do sistema.”[38]

Em algo, o Partido Comunista Chinês e o partido fascista da Formosa estão de acordo. Uma questão importante: o movimento “democrático” de Pequim tem absolutamente um carácter contra-revolucionário.

O programa de Frang Lizhi

Para julgar se esta avaliação está correcta, é importante analisar, com toda objectividade o programa político preparado pelo núcleo da Praça TianAnMen.

O movimento, previsto originalmente para 4 de Maio de 1989, foi preparado durante todo ano de 1988. Em inícios de 1989, Frang Lizhi, o padre espiritual indiscutível do movimento, visita as capitais ocidentais com o objectivo de receber apoios para o iminente movimento. No Libération de 17 de Janeiro de 1989, Fang Lizhi publicou um artigo intitulado “A China necessita de democracia”, consigna repetida depois pelo movimento estudantil de Pequim. Denegrindo os 40 anos da construção socialista, Fang Lizhi declarou: “a lógica só leva a uma conclusão: as desilusões dos últimos 40 anos devem ser atribuídas ao sistema social (...). O socialismo, no seu modelo Lenin-Stalin-Mao, foi completamente desacreditado.” Partidário da introdução das leis do capitalismo na China, acrescenta: “pode uma economia livre ser compatível com o modelo especificamente ditatorial do governo chinês? Um olhar sobre a China de 1988 prova que a única resposta é não. A China difere de outros países porque o seu sistema de ditadura não pode suportar uma economia totalmente livre. E isto, porque a ditadura socialista está intimamente vinculada a um sistema de “propriedade coletiva” e a sua ideologia fundamental é contrária aos direitos de propriedades requeridos por uma economia livre.”

Fang Lizhi continuava a repetir que entendia a expressão “liberdade de imprensa” como a liberdade de expressão para a ascendente classe dos capitalistas chineses: “o editor de um jornal de Cantão escreveu recentemente que a função de seu jornal era escrever, não em nome do PCC, mas sim no da classe média emergente de Cantão.”

E, para concluir o seu artigo, Fang Lizhi explicou a táctica que havia de seguir, inspirado amplamente pelas experiências polaca e húngara: “a democracia é algo mais do que um slogan: exerce uma pressão consubstancial a ela. O objectivo desta pressão é obrigar as autoridades, progressivamente através de meios não violentos, a aceitar mudanças na direcção da democracia política e da economia livre.”[39]

No momento em que o suposto movimento pela democracia foi lançado sobre Pequim, os seus diferentes porta-vozes, quando negociavam as perspectivas económicas e políticas da China, só repetiam essas orientações.

Esta declaração-programa de Fang Lizhi mostra todo o seu alcance quando se examina, paralelamente, a politica declarada pela Formosa. Recentemente, o primeiro-ministro da Formosa, Lee Huan, manifestou, antes do seu governo, a linha de actuação. Segundo Lee Huan, a Formosa “só levou a cabo uma ofensiva política sobre o continente, porque uma ofensiva militar exigiria sacrifícios demasiado elevados e custaria demasiados danos.”[40] Nos documentos do Koumintang, encontramos as seguintes linhas directrizes: “prosseguir activamente o trabalho ideológico sobre o continente com o objectivo de combater a estratégia do Partido Comunista. Eliminar a ditadura marxista-leninista no continente. Destruir a ditadura de partido único do comunismo chinês. Permitir a propriedade privada da terra e o desenvolvimento da empresa privada.”[41]

A Federação para a Democracia e o Koumintang: as coincidências

Três meses depois da repressão do movimento, os seus principais líderes reencontram-se em Paris para criar a Federação para a Democracia na China. Elegem a sua direcção: Yan Jiaqi, principal dirigente dos intelectuais da Praça TianAnMen, Wuer Kaixi, próximo de Zhao Zhiyang e principal dirigente estudantil e Wan Runnan, um dos mais importantes capitalistas da República Popular.

O programa adoptado pela Federação não se distingue em nada do perseguido pelo Koumintang. A Federação dos “democratas” denunciou que o Partido Comunista criou “um sistema onde, o totalitarismo stalinista se uniu ao despotismo oriental”. Afirma que “a tolerância do povo chinês, no que respeita ao Partido Comunista, alcançou limites extremos”. O seus objectivos principais são formulados assim: “desenvolver a economia de iniciativa privada e acabar com a ditadura de partido único”.[42]

Desde o momento em que o programa foi publicado, o paralelismo entre a política dos fascistas da Formosa e os dirigentes de TianAnMen teriam que alarmar todos os progressistas e anti-imperialistas. Desde então, as posições destes dois grupos anti-comunistas não fizeram outra coisa que coligar-se. Em primeiro lugar, tanto o Koumintang como a Federação para a Democracia procuravam derrubar o Partido Comunista, apoiando-se nas forças da alta burguesia da Formosa, dos Estados Unidos, de Hong Kong e de Singapura.

Perante um auditório em São Francisco, Shaw Yuming, director geral de informação do governo da Formosa declarou: “o governo da República da China (Formosa) seguiu de perto o movimento estudantil desde o primeiro momento e estudou diversas contra-estratégias. Para não dar nenhum pretexto aos comunistas chineses para suprimir o movimento, devemos adoptar uma atitude extremamente prudente. (...) A nossa esperança é utilizar o modelo de desenvolvimento da Formosa como base para alcançar o nosso objectivo: a reunificação da China sob um sistema livre e democrático. (...) Os Chineses do continente, da Formosa, de Hong Kong, de Macau, dos Estados Unidos, do Canadá, da Europa e da região oriental da Ásia chegaram ao consenso, depois da matança de TianAnMen, de acabar com a tirania dos comunistas chineses.”[43]

Esta orientação política da Formosa, é repetida praticamente palavra por palavra pelo porta-vóz dos intelectuais do movimento de Pequim, Yan Jiaqi. Em 28 de Julho de 1989, por ocasião da primeiro sessão do Congresso dos Estudantes Chineses nos Estados Unidos, em Chicago, declarou: “as contribuições devem vir dos chineses do ultramar. Os comunistas chineses podem controlar o povo com tanques, porém não podem suprimir a empresa privada fora da China. A democracia depende da expansão económica. A formula que prevê que a Formosa tenha um governo democrático sob a direcção da República da China não é bem-vinda. O importante não é que a China esteja dividida entre forças socialistas e capitalistas, mas sim que umas são ditatoriais e outras democráticas. Para nós, qualquer um que apoie a ditadura é nosso inimigo e qualquer um que se oponha à ditadura é nosso amigo. O povo da Formosa vê com esperança a bandeira democrática. Isto, penso, é a base fundamental para a reunificação da Formosa e da China continental.”[44]

A segunda coincidência: o Kuomintang e a Federação para a Democracia, denigrem a experiência socialista na China desde a libertação em 1949. À pergunta dos jornalistas: “Acreditam que os chineses idealizam muito os primeiros anos do comunismo?” Yan Jiaqi responde: “Não! O início dos anos 50 é a época em que o Partido Comunista instala as bases do seu poder, que perseguia os partidários do Kuomintang de Tchang Kaichek, em que expropriava os capitalistas en plena luz do dia, no campo, repartia a terra entre os camponeses expropriando os bens imóveis dos proprietários. Esta época em que o Partido Comunista começava a sua primeira campanha contra os intelectuais e todas as pessoas que pensavam de forma diferente.”[45] A sua argumentação é retirada da tese dos fascistas do Kuomintang que pretendem que, desde a chegada ao poder, o Partido Comunista levou a cabo uma política “criminosa”.

A terceira coincidência: todo o discurso do Kuomintang, como ocorre com a Federação para a Democracia, está orientado sobre uma base central: a empresa privada, o capitalismo selvagem.

O secretário-geral da Federação para a Democracia na China é o milionário Wan Runnan, ex-diretor geral da sociedade de equipamentos electrónicos Stone, uma das empresas privadas mais importantes da China. Tinha um beneficio aproximado de 50 milhões de dólares anuais. Em Fevereiro de 1990, Wan Runnan apresenta as suas impressões à revista Boletim de Sinologia, editada em Hong Kong: “Wan Runnan acredita que a ditadura de partido único constitui um freio para o desenvolvimento económico. Preconiza a instauração, na economia, de um sistema de propriedade privada e, na política, de um sistema pluralista.”[46] Perante a City University de New York, Wan Rumman declarou: “uma solução simples para os problemas da China consiste em privatizar a propriedade, tornando possível a emergência de uma classe média.”[47] Yan Jiaqi confirma esta opinião afirmando que uma economia socialista é a base do totalitarismo, ideia central de Fang Lizhi. “Se a China não adoptar um sistema de propriedade privada na economia, estará condenada ao totalitarismo e ao controlo do pensamento.”[48]

As peregrinações à Formosa

Recentemente, a Federação para a Democracia na China, através de seu presidente Jan Jiaqi, deu a conhecer uma estratégia em quatro fases. Primeira fase: a queda de Li Peng. Segunda fase: revisão do juízo sobre a natureza do movimento de Pequim. Terceira fase: regresso dos dissidentes e reforma da constituição na direcção de um sistema pluri-partidário como o da Polónia, Hungria e União Soviética. Quarta fase: estabelecimento de um sistema federal e eleições multi-partidárias, com a participação do Partido Comunista, o Kuomintang e a Aliança Democrática.[49] Pelo menos, nesta lista de intenções, o objectivo estava claro: o regresso do velho partido fascista e a chegada de um novo partido criado nos Estados Unidos por agentes chineses da CIA.

Quando, meses depois da repressão do movimento pro-imperialista de Pequim, afirmá-mos que este foi dirigido por contra-revolucionários e que pretendiam estabelecer o regime da Formosa na China, os trotskistas fingiram-se indignados. Mandel teve o atrevimento de escrever: “a vitória dos estudantes teria reforçado a base do socialismo na China. O seu esmagamento por uma camarilha de déspostas militares foi um duro golpe ao socialismo.”[50] Agora vemos que todos os protagonistas do suposto movimento democrático são desmascarados e mostram abertamente como são agentes da Formosa e dos Estados Unidos. Vemos de quem foi advogado Mandel.

Yan Jiaqi, o pensador do movimento “democrático”, foi à Formosa em 8 de Maio de 1990, para declarar isto: “Para a democratização da China continental, a experiência da Formosa tem um grande valor como referência.”[51]

O segundo herói da Praça TianAnMen era Wuer Kaixi. Em 29 de Janeiro solicitou uma entrevista com John Chang, o director do departamento de negócios chineses do Kuomintang, quer dizer, o chefe dos serviços secretos da Formosa na República Popular. O nosso democrata declarou aos fascistas: “a comunicação entre os chineses anti-comunistas é o primeiro passo para a unidade.”[52]

Su Hsiao-Kang, o célebre escritor, chegou à Formosa no início de Janeiro acompanhado por outros quatro escritores, militantes da Praça TianAnMen. Ali denunciou: “o totalitarismo de tipo stalinista imposto por Mao Tsé-Tung”. Segundo a imprensa da Formosa, “criticou a Formosa pela pouca contundência do seu apoio ao movimento democrático do continente”. Sempre segundo a imprensa do Koumintang: “Su afirmou que certos membros da Federação para a Democracia na China pensavam que a acção sangrenta e a guerra civil eram inevitáveis no combate pela democracia.”[53]

Yueh Wu, dirigente do Sindicato Operário de Pequim, muito bem considerado pelos nossos trotskistas, chegou a 16 de Janeiro à Formosa, convidado pela Liga Anti-comunista Mundial![54]

Em Janeiro, todos os dirigentes da Federação, liderados pelo secretário-geral Wan Runnan, assim como cinquenta estudantes e escritores do movimento de TianAnMen, foram convidados à Formosa. Um quadro do Kuomintang declarou: “hoje é um segredo público que todos os grupos importantes do movimento democrático recebem a maior parte de seus fundos de ajuda da Formosa.”[55]

Estas informações podem provocar calafrios em todos os que acreditaram, num momento ou outro, que os estudantes de TianAnMen eram jovens ingénuos, politicamente virgens. Agora, as provas são contundentes: para toda a direcção do movimento, a “liberdade” é a liberdade da empresa capitalista e da exploração, a “democracia” e o multi-partidarismo é o regresso do partido fascista do Kuomintang e dos seus esquadrões da morte à China. A grande campanha anti-comunista que a Amnistia Internacional lançou em Maio de 1990 tem como lema: “No ano passado, a primavera florescia na China cheia de Esperanças”.[56] Uma expressão claramente política que repetia a versão difundida pelos estrategas do imperialismo: o movimento pela democracia era uma primavera cheia de esperanças. Agora, se a Amnistia Internacional quer fazer política (e a faz com grande requinte), não pode impedir um debate aberto nas suas fileiras sobre a análise deste movimento. E uma analise objectiva leva a uma conclusão indiscutível: este movimento apontava para o restabelecimento da dominação neo-colonial sobre a China e o renascimento da dominação fascista do Kuomintang. E está é a orientação que defende a Amnistia Internacional-Belga sob o pretexto de “não fazer política”.

O seu “pacifismo” era uma mentira: aqui estão as provas

Hu Yaobang morreu a 15 de Abril de 1989. O sector mais à direita dos estudantes de Pequim aproveitou isto para reivindicar que a tendência de Hu, cuja orientação liberal pró-imperialista é bem conhecida, tivesse a direcção absoluta do Partido e que os últimos representantes da linha marxista-leninista fossem eliminados. O primeiro requisito desta direita é a restauração dos méritos de Hu Yaobang, criticado em 1987, e a reabilitação política de todos os seus partidários excluídos do Partido, cuja figura principal é Fang Lizhi, o célebre adorador do imperialismo americano e do regime da Formosa. Em 24 de Abril, este núcleo de estudantes anuncia a formação de um Comité preparatório da Federação Nacional dos Estudantes e a sua ruidosa defesa do Solidariedade indica a intenção de construir um centro político legal capaz de reunir todas as forças anti-comunistas.[57]

Como resposta, o Bureau Político do Partido Comunista denunciou a 26 de Abril “uma conspiração organizada e “uma agitação que tentava acabar com a direcção do Partido Comunista e com o regime socialista”.

A 2 de Maio, o grupo estudantil envia uma petição ao Partido em que afirma responder à oferta de diálogo feita pelo governo. Quando o estudamos cuidadosamente, comprova-se que este grupo não procura de maneira nenhuma o dialogo, mas sim o confronto e que o seu grande objectivo é o derrube do Partido Comunista. No primeiro ponto, exigem “a igualdade absoluta” entre as duas partes, os estudantes e as autoridades nacionais, com a presença dos responsáveis mais altos do Partido e do Estado. Os estudantes devem ser representados pela Federação Autónoma dos Estudantes, o que implica o reconhecimento oficial das organizações anti-socialistas. O grupo exige também que o encontro seja retransmitido integralmente pela televisão, facilitando assim a implantação da organização anti-comunista no resto do país.[58]

Compreendendo perfeitamente o sentido político desta táctica, uma revista do governo norte-americano declara: “se esta petição fosse aceite, os estudantes obteriam a legalização da primeira organização política completamente independente da história da República Popular e a negação dos quatro princípios fundamentais de Deng Xiaoping.”[59]

Zhao Zhiyang une-se à contra-revolução

Um marco importante verificou-se a 4 de Maio, com o discurso de Zhao Zhiyang, no seu regresso de Pyongyang. Perante os membros do Banco Asiático de Desenvolvimento, Zhao apresenta uma avaliação positiva do movimento estudantil e reprova os que consideravam que este movimento estava dirigido por forças anti-socialistas.

Uma revista do governo norte-americano fez, pouco depois, a seguinte análise da intervenção de Zhao: “apesar da enorme dimensão das manifestações, ainda não constituem uma rebelião popular. Estas manifestações só foram possíveis no momento em que os manifestantes viram que tinham a simpatia de uma facção do Partido e do aparato governamental, que via nos manifestantes uma ajuda ao seu combate contra os conservadores. Este processo começou depois do discurso de 4 de Maio de Zhao.”[60]

Muitos membros do Partido Comunista são desorientados pelas apreciações sobre o movimento estudantil que vêm da direcção do Partido. Zhao dá instruções a todos os meios de comunicação para que apoiem o crescente movimento. Graças aos meios de comunicação, o movimento estudantil transforma-se num movimento popular. Depois da declaração da lei marcial, em 20 de Maio, até ao dia 25 de Maio, a imprensa, a rádio e a televisão chamam a população a opor-se à entrada do Exército em Pequim.[61]

E neste momento, de confusão política geral, quando as forças autenticamente de esquerda, gente que criticava as reformas de Deng Xiaoping a partir dos princípios de Mao Tsé-Tung e Zhou En-lai, comprometeram-se com o movimento. Desde esse momento os manifestantes perseguiram fins totalmente opostos, uns querendo o regresso aos princípios socialistas dos anos de Mao e outros impulsionando as reformas até à introdução da economia de mercado. Estes últimos tiveram a direcção política do movimento em todo o momento.

A direita e o assalto ao Poder

A 17 de Maio, Yan Jiaqi, um dos principais dirigentes do movimento e colaborador próximo de Zhao, publicou o Manifesto do 17 de Maio. Em apoio a Zhao Zhiyang contra o “imperador” Deng Xiaoping e contra “o governo controlado por um ditador absolutista”. Yan escreve: “Abaixo o editorial de 26 de Abril! Abaixo a ditadura! Viva o espírito de oposição à tirania!” O seu manifesto é publicado no dia seguinte pela imprensa da Formosa.[62] Desde esse dia, fala abertamente da eliminação da esquerda marxista do governo.

Podemos ler numa declaração da direcção do movimento de TianAnMen, em 21 de Maio: nós não somos a “classe de pessoas que buscam um compromisso com um governo que trata este movimento patriótico de modo errado”. Se o governo não desaparecer, então “os distúrbios nunca terão fim”.[63] No mesmo 21 de Maio, Yan Jiaqi reclama numa declaração o derrube do primeiro-ministro Li Peng, do presidente da República Yang Shangkung e da autoridade superior militar, Deng Xiaoping. Yan reclama a sua expulsão do Partido e da sua corrente em acusação diante do tribunal.[64]

Porém, em finais de Maio de 1989, a grande maioria do Comité Central do Partido, liderada por Deng Xiaoping e Li Peng une-se contra a facção pró-capitalista de Zhao Zhiyang.[65]

No 1º de Junho, o quartel general dos estudantes em TianAnMen exige o fim da lei marcial e a retirada das tropas. Ao anunciar a violência que preparam, afirmam: “se estas reivindicações não forem aceites os estudantes estarão dispostos a sacrificar as suas vidas.”[66]

De forma manifesta o movimento perde o dinamismo. Contudo, o núcleo duro não pensa em ceder de nenhuma maneira. Pelo contrário, preparam acções desesperadas. Os estudantes decidem continuar a ocupação da Praça TianAnMen até à sessão do Congresso dos deputados de 20 de Junho. Um novo pico de protestos é sempre possível em Pequim. Alguns distúrbios já se manifestavam nas províncias. Uma revista do governo norte-americano que comprova a decadência do movimento escreve: “por causa do financiamento procedente do sector privado chinês e dos simpatizantes de fora e do reforço proporcionado por novos manifestantes que chegam a capital, é difícil que o movimento se dissolva por si mesmo.” [67]

Depois de uma campanha de informação de duas semanas, durante a qual as autoridades não aplicaram a lei marcial, decidiram desocupar a Praça utilizando o Exército e as forças de ordem. A 2 de Junho, enviaram soldados desarmados para fazer com que os estudantes marchassem. Não é de nenhum modo uma “provocação”, como disse a imprensa anti-comunista. O envio de soldados sem armas corresponde perfeitamente à fase de decadência do movimento e à vontade do Partido de acabar com as desordens sem violência, política praticada há seis semanas e absolutamente impensável em qualquer país imperialista. Neste 2 de Junho, os soldados desarmados são atacados, agredidos e feitos prisioneiros por estudantes e elementos não identificados.


[1] nota do tradutor espanhol: Exército Popular de Libertação desde Junho de 1946.
[2] Beijing Information, 6 de Março de 1986, p.21.
[3] nota do tradutor espanhol: Friedman é um economista norte-americano, figura principal da Escola de Chicago e Prémio Nobel de Economia em 1976. Criador da ultra-liberal teoria monetária, que defende as forças do mercado livre contra o investimento público. Entre as suas obras está Capitalismo e Liberdade, de 1962.
[4] A China, Fevereiro de 1989, p.12.
[5] China Actual, Aaneiro de 1989, p.19
[6] Problems of Communism, Setembro-Outubro de 1989, p.37.
[7] Orbis, Verão de 1989, p.327-335.
[8] Beijing Information, 6 de Março de 1989, documento VIII.
[9] Far Eastem Economie Review, 29 de Maio de 1989, p.18.
[10] Business Week, 5 de Junho de 1989, p.21-22.
[11] Business Week, 5 de Junho de 1989, p.21-22.
[12] The Guardian, 10 de Maio de 1989, por Cliff Du Rand
[13] Far Eastern Economia Review, 1 de Junho de 1989, p.66.
[14] Le Printemps de Pékin, Gallimard, 1980, p.69-71. Le dégel, 9 de Março de 1979.
[15] De papieren lente, Aula-paperback 64, Het Spectrum, 1981, p.96-97; 123; 128.
[16] Lawrence Macdonald - Jean Christophe Tournebise, Le Dragon el la Souris, Bourgeois, 1987, p.84.
[17] Ibidem, p.204-205; 229-230.
[18] nota do tradutor espanhol: movimento de protesto dirigido pelos estudantes de Pequim após a segunda guerra mundial. Os manifestantes que chegaram a Praça Tian An Men queixavam-se que a China não tinha assinado o Tratado de Versalhes.
[19] Beijing Information, 2 de Novembro 1981, p.21.
[20] Lawrence Macdonald, op. cit, p.34.
[21] Beijing Information, 9 de Janeiro de 1989, p.21-23.
[22] Circular do Comité Central de 16 de Maio de 1966.
[23] Beijing Information, 25 de Julho de 1988, p.5.
[24] Lawrence Macdonald, op. cit., p.238.
[25] Ibidem, p.242.
[26] The China Quarterly, Junho de 1988, p.182.
[27] The Mirror Monthly, Abril de 1989, p.22-24, en Inside Mainland China, Junho de 1989, p.7.
[28] Problems of Communism, Setembre-Outubro de 1989, p.19.
[29] Wide Angle Monthly, 16 de Abril, p.62-65, en Inside Mainland China, Junho de 1989, p.14.
[30] International Herald Tribune, 2 de Novembro de 1988.
[31] Le Monde, 8 de Setembro de 1989.
[32] Problems of Communism, Setembro-Outubro de 1989, p.19.
[33] Pai-hsing Semi-monthly, 16 Maio de 1989, p.25 en Inside Mainland China, xullo de 1989, p.22; Problems of Communism, Setembro-Outubro de 1989, p.19.
[34] Problems os Communism, Setembro-Outubro de 1989, p.4.
[35] Problems of Communism, Setembro-Octubre de 1989, p.4-5.
[36] Petición contra a represión en China, Annemie Desmedts, Socialisme Sans Frontières.
[37] The Free China Journal, 8 de Junho, 1989, p.2.
[38] Sinorama, Taipei, vol. 14, nc8, Agosto de 1989, p.55.
[39] Libération, 17 de Janeiro de 1989, p.5.
[40] Echos de la République de Chine, 21 de Junho de 1989, p. 1.
[41] The Free China Journal, 22 de Março de 1990, p.5; Echos de la République de Chine, Ibídem.
[42] Manifesto da FDC, París, 26 de Setembro de 1989.
[43] The Free Journal, 10 de Agosto de 1989.
[44] The Free Journal, 14 de Agosto de 1989.
[45] Libération, 2 de Outubro de 1989.
[46] Bulletin de Sinologie, Hong-Kong, Fevereiro de 1990, traducción de Solidarité Estudiants Chinois, Maio de 1990, L-L-N, p.5.
[47] The Nation, New York, 23 de Abril de 1990, p.563-564.
[48] Libération, 2 de Outubro de 1989.
[49] Problems of Communism, Setembro-Outubro de 1989, Chinese Democracy, p.27.
[50] Rood, 20 de Junho de 89, p.7.
[51] The Free China Journal, 14 de Maio de 1990.
[52] The Free China Journal, 5 de Fevereiro de 1990.
[53] The Free China Journal, 11 de Janeiro de 1990, p.2.
[54] The Free China Journal, 22 de Janeiro de 1990, p.2.
[55] The Nation, ... , p.564.
[56] Bijlage Amnesty Nieuws, 6º ano, Junho de 1990.
[57] Problems of communism, The Tiananmem massacre, p.6.
[58] ?
[59] Problems of communism, Setembro-Outubro de 1989, p.25.
[60] Problems of communism, Setembro-Outubro de 1989, Political sociology of the Beijing Upheaval, p.38.
[61] Ibídem, p.39.
[62] United Daily News, 18 de Maio, Taiwán, en Inside Mainland China, Junho de 1989, p.3.
[63] Carta aberta a Deng Xiaoping, Inside Mainland China, Agosto de 1989, p.7.
[64] Inside Mainland China, Agosto de 1989, p.7-8.
[65] Ming Pao, 22 de Maio de 1989, en Inside Mainland China, Junho de 1989, p.1.
[66] Joint Declaration, en Inside Mainland China, Agosto de 1989, p.9.
[67] Problems of Communism, Setembro-Outubro de 1989, The Tian An Men, p.12.



2 comentários:

  1. Informamos que colocamos um Banner em nosso site - http://comunidadestalin.org/

    Comunidade Stálin

    ResponderEliminar
  2. Camaradas, se verificarem, o link para o vosso blogue também se encontra disponível no nosso blogue, em "Outros Blogues" ;)

    Um Grande Abraço!

    ResponderEliminar