terça-feira, 11 de junho de 2013

Poesia | Mauro Iasi - Vale a Pena Viver Quando se é Comunista



Quando a noite parece eterna
e o frio nos quebra a alma.
Quando a vida se perde por nada
e o futuro não passa de uma promessa.
Nos perguntamos: vale a pena?

Quando a classe parece morta
e a luta é só uma lembrança.
Quando os amigos e as amigas se vão
e os abraços se fazem distância.
Nos perguntamos: Vale a pena?

Quando a história se torna farsa
e outubro não é mais que um mês.
Quando a memória já nos falta
e maio se transforma em festa.
Nos perguntamos: vale a pena?

Mas, quando entre camaradas nos encontramos
e ousamos sonhar futuros.
Quando a teoria nos aclara a vista
e com o povo, ombro a ombro, marchamos.
Respondemos: vale a pena viver,
quando se é comunista.


Mauro Iasi

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Entrevistas | Álvaro Cunhal - Telejornal SIC (2000)




Música de Intervenção | Luísa Basto - Avante Camarada



Avante, camarada, avante,
Junta a tua à nossa voz!
Avante, camarada, avante, camarada
E o sol brilhará para todos nós!

Ergue da noite, clandestino,
À luz do dia a felicidade,
Que o novo sol vai nascendo
Em nossas vozes vai crescendo
Um novo hino à liberdade
Que o novo sol vai nascendo
Em nossas vozes vai crescendo
Um novo hino à liberdade

Avante, camarada, avante,
Junta a tua à nossa voz!
Avante, camarada, avante, camarada
E o sol brilhará para todos nós!

Cerrem os punhos, companheiros,
Já vai tombando a muralha.
Libertemos sem demora
Os companheiros da masmorra
Heróis supremos da batalha
Libertemos sem demora
Os companheiros da masmorra
Heróis supremos da batalha

Avante, camarada, avante,
Junta a tua à nossa voz!
Avante, camarada, avante, camarada
E o sol brilhará para todos nós!

Para um novo alvorecer
Junta-te a nós, companheira,
Que comigo vais levar
A cada canto, a cada lar
A nossa rubra bandeira
Que comigo vais levar
A cada canto, a cada lar
A nossa rubra bandeira

Avante, camarada, avante,
Junta a tua à nossa voz!
Avante, camarada, avante, camarada

E o sol brilhará para todos nós!

domingo, 9 de junho de 2013

Artigos de Opinião | Luís Carapinha - A Revolução Defende-se



Passaram 90 dias da morte do Comandante Hugo Chávez. Para ninguém é segredo, dentro e fora da Venezuela, que o desaparecimento prematuro do líder da revolução bolivariana representa uma perda irreparável e que, nesta situação, o processo emancipador se depara com o quadro mais complexo jamais enfrentado. Contudo, desengane-se quem julgue que a revolução está derrotada ou prestes a capitular. A aliança da grande burguesia venezuelana, comandada e assessorada desde Washington, apostou forte na agenda desestabilizadora, mas voltou a sair derrotada no embate frontal das presidenciais de 14 de Abril e na operação subversiva que logo fez desencadear com a violência nas ruas e a campanha de desconhecimento e impugnação das eleições. Durante largos meses as forças da reacção prepararam-se para este cenário eleitoral e pós-eleitoral. Desavergonhadamente, os mesmos inimigos declarados da Constituição bolivariana e protagonistas do golpe fracassado de 2002 apresentaram-se às primeiras eleições sem Chávez sob o chapéu de um comando de campanha designado «Símon Bolívar». O candidato Capriles transfigurou-se em simpatizante de todas as causas populares, erigindo-se mesmo em simpatizante do «genuíno» chavismo. A par da cerrada campanha político-mediática planearam e levaram a cabo a guerra económica. Uma guerra de desgaste da base eleitoral e social da revolução, promovendo sabotagens da rede eléctrica, a falta de produtos alimentares e de consumo básico e a tentativa de instauração de um clima de caos. Congeminando soluções golpistas, a oposição não deixa de acenar com a saída do reformismo para o interior do movimento bolivariano e do aparelho estatal.

A Venezuela está imersa num processo revolucionário com características próprias em muito inéditas. Num percurso sinuoso, partindo de uma revolução de libertação nacional que se procura consolidar na via de uma transição socialista, corajosamente assumida por Chávez em 2006 e reiterada pelo actual Presidente, Nicolás Maduro, o país vive as contradições de um processo de transformações incompleto, em que o novo ainda só começou a brotar e o velho ainda persiste. No campo bolivariano há consciência de que as relações de produção dominantes continuam a ser capitalistas, inseparáveis da matriz económica rentista assente na exploração e exportação petrolíferas, excessivamente dependente das importações (alimentos, artigos de consumo e equipamentos). A campanha subversiva da direita, acalentada por mais de sete milhões de votos, contribuiu para a agudização da conjuntura económica em que sobressaem os desequilíbrios produtivos e estruturais da economia venezuelana num contexto em que a revolução bolivariana elevou sensivelmente, não apenas o PIB, mas também – e mais – a capacidade aquisitiva e o consumo de amplas camadas.

A resposta do Governo concentra-se em desarmar a desestabilização e atender os problemas mais agudos causadores de mal-estar social. Ao mesmo tempo trata de avançar com medidas estratégicas de elevação da capacidade produtiva e participação dos trabalhadores, sem a organização dos quais não existe sujeito revolucionário.


A determinação das massas venezuelanas é preponderante. Já sem a presença física de Chávez, a iniciativa permanece no campo bolivariano. A unidade concreta das forças anti-imperialistas e revolucionárias é essencial, num momento em que os EUA ainda não reconheceram Maduro e intensificam as pressões para reverter a correlação de forças na América Latina que não tem sido favorável ao imperialismo.


Poesia | Sophia de Mello Breyner Andresen - Che Guevara


Contra ti se ergueu a prudência dos inteligentes e o arrojo dos patetas
A indecisão dos complicados e o primarismo
Daqueles que confundem revolução com desforra

De poster em poster a tua imagem paira na sociedade de consumo
Como o Cristo em sangue paira no alheamento ordenado das igrejas

Porém
Em frente do teu rosto
Medita o adolescente à noite no seu quarto
Quando procura emergir de um mundo que apodrece



Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 8 de junho de 2013

Música de Intervenção | Luís Cília - Portugal Resiste



Tiraste-me o direito à vida , mas eu vivo
Mandaste-me prender, mas eu sou livre
Que não pode morrer, não pode ser cativo
Quem pela Pátria morre, e só por ela vive.

Vi os campos florir mas não ouvi
Raparigas cantando em nossas eiras
Nossos frutos eu vi levar e vi
Na minha Pátria as garras estrangeiras

Vi os velhos e os meninos assentados
nos degraus da tristeza vi meu povo cismando
vi os campos desertos, vi partir soldados
sobre o meu povo negros corvos vi pairando

E tu que do pais fizeste a triste cela
Tu que te fechas em teu próprio cativeiro
Tu saberás que a Pátria não se vende
E em cada peito em cada olhar se acende
Este fogo este vento de lutar por Ela.

Tu saberás que o vento não se prende.

E não terás nas tuas mãos de carcereiro
O sol que mora nas canções que nós cantamos
Nem estas uvas penduradas nas palavras
Tu que servis as pretendeste ou escravas

Em silêncios de morte e de convento
Tu ouvirás na língua que traíste
Palavras como o fogo como o vento

Estas palavras com que Portugal resiste

Conferências/Seminários | João Oliveira - Dimensão Cultural e Artística de Álvaro Cunhal (2013)



quinta-feira, 6 de junho de 2013

Poesia | Ernesto "Che" Guevara - Eu Sei! Eu Sei!



Se sair daqui, o rio me engolirá...
É o meu destino: hoje devo morrer!
Mas não, a força de vontade pode superar tudo
Há obstáculos, eu reconheço
Não quero sair.
Se tenho que morrer, será nesta caverna.
As balas, o que podem as balas fazer comigo
se meu destino é morrer afogado? Mas vou
vencer o destino. O destino pode ser
conseguido pela força de vontade.
Morrer, sim, mas crivado de
balas, destroçado pelas baionetas, se não, não. Afogado não...
Uma recordação mais duradoura do que meu nome
É lutar, morrer lutando.


Ernesto “Che” Guevara

Conferências/Seminários | José Casanova - Tertúlia do Mercado (2013)



quarta-feira, 5 de junho de 2013

Música de Intervenção | Luís Cília - O Povo Unido Jamais Será Vencido



De pé, cantar, que vamos triunfar
Avançam já bandeiras de unidade
Já vão crescendo brados de vitória
E tu verás teu canto e bandeira, florescer
A luz de um rubro amanhecer,
Milhões de braços fazendo a nova história.

De pé, marchar, que o povo vai triunfar
Agora já ninguém nos vencerá
Nada pode quebrar nossa vontade
E num clamor mil vozes de combate nascerão
Dirão, canção de liberdade;
Será melhor a vida que virá.

E agora, o povo ergue-se e luta
Com voz de gigante, gritando avante

O povo unido jamais será vencido

O povo está forjando a unidade
De norte a sul, na mina e no trigal
Somos do campo, da aldeia e da cidade
Lutamos unidos pelo nosso ideal, sulcando
Rios de luz, paz e fraternidade
Aurora rubra serás realidade

De pé, cantar, que o povo vai triunfar
Milhões de punhos impõem a verdade
De aço são, ardente batalhão
E as suas mãos levando a justiça e a razão
Mulher, com fogo e com valor
Estás aqui junto ao trabalhador.

E agora, o povo ergue-se e luta
Com voz de gigante, gritando avante


O povo unido jamais será vencido

Conferências/Seminários | Jerónimo de Sousa - Comemoração do Aniversário do PCP e do Centenário do Nascimento de Álvaro Cunhal (2013)



domingo, 2 de junho de 2013

Música de Intervenção | Luís Cília - Não Me Peçam Razões



Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, nascem todas
Da mansa hipocrisia que aprendemos.
Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.
Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.

Conferências/Seminários | Jerónimo de Sousa - O Euro e a Dívida - Défices Estruturais (2013)



quinta-feira, 30 de maio de 2013

Poesia | Pablo Neruda - Em Sua Morte



Camarada Stalin, eu estava junto ao mar na Ilha Negra,
descansando de lutas e de viagens,
quando a notícia de tua morte chegou como um choque de oceano.

Foi primeiro o silêncio, o esturpor das coisas, e depois chegou do mar uma onda grande
de algas, metais e homens, pedras, espuma e lágrimas estava feita esta onda.
de história, espaço e tempo recolheu sua matéira
e se elevou chorando sobre o mundo
até que diante de mim veio para golpear a costa
e derrubou em minhas portas sua mensagem de luto
com um grito gigante
como se de repente se quebrasse a terra.

Era em 1914.
Nas fábricas se acumulavam sujeiras e dores.
Os ricos do novo século
repartiam-se a dentadas o petróleo e as ilhas, o cobre e os canais.
Nem uma só bandeira levantou suas cores
sem os respingos do sangue.
De Hong Kong a Chicago a polícia
buscava documentos e ensaiava a metralhadoras na carne do povo.
As marchas militares desde a aurora
mandavam soldadinhos para morrer.
Frenético era o baile dos estrangeiros
nas boates de Paris cheias de fumo.
Sangrava o homem.
Uma chuva de sangue
caía do planeta,
manchava as estrelas.
A morte estreou então armaduras de aço.
A fome
Nos caminhos da Europa
foi como um vento gelado aventando folhas secas e quebrantando ossos.
O outono soprava os farrapos.
A guerra havia eriçado os caminhos.
Olor de inverno e sangue
emanava da Europa
como de um matadouro abandonado.
Enquanto isso os donos
do carvão,
do ferro,
do aço,
do fumo,
dos bancos,
do gás,
do ouro,
da farinha,
do salitre,
do jornal El Mercúrio,
os donos de bordéis,
os senadores norte-americanos,
os flibusteiros
carregados de ouro e sangue
de todos os países,
eram também os donos
da História.
Ali estavam sentados
de fraque, ocupadíssimos
em dispensar-se condecorações,
em presentear-se cheques na entrada
e roubá-los na saída,
em presentear-se ações da carnificina
e repartir-se a dentadas
pedaços de povo e de geografia.

Então com modesto
vestido e gorro operário,
entrou o vento,
entrou o vento do povo.
Era Lênin.
Mudou a terra, o homem, a vida.
O ar livre revolucionário
transtornou os papéis
manchados. Nasceu uma pátria
que não deixou de crescer.
É grande como um mundo, mas cabe
até no coração do mais
humilde
trabalhador de usina e oficina,
de agricultura ou barco.
Era a União Soviética.

Junto a Lênin
Stalin avançava
e assim, com blusa branca,
com gorro cinzento de operário,
Stalin,
com seu passo tranqüilo,
entrou na História acompanhado
de Lênin e do vento.
Stalin desde então
foi construindo. Tudo
fazia falta. Lênin
recebeu dos czares
teias de aranha e farrapos.
Lênin deixou uma herança
de pátria livre e vasta.
Stalin a povoou
com escolas e farinha,
imprensas e maçãs.
Stalin desde o Volga
até a neve
do norte inacessível
pôs sua mão e em sua mão um homem
começou a construir.
As cidades nasceram.
Os desertos cantaram
pela primeira vez com a voz da água.
Os minerais
acudiram,
saíram
de seus sonhos escuros,
levantaram-se,
tornaram-se trilhos, rodas,
locomotivas, fios
que levaram as silabas elétricas
por toda extensão e distância.
Stalin
construía.
Nasceram de suas mãos
cereais,
tratores,
ensinamentos,
caminhos,
e ele ali
simples como tu e como eu,
se tu e eu conseguíssemos
ser simples como ele.
Porém aprenderemos.
Sua simplicidade e sua sabedoria,
sua estrutura
de bondoso coração e de aço inflexível
nos ajuda a ser homens cada dia,
diariamente nos ajuda a ser homens.

Ser homens! É esta
a lei Staliniana!
Ser comunista é difícil.
Há que aprender a sê-lo.
Ser homens comunistas,
é ainda mais difícil,
e há que aprender de Stalin
sua intensidade serena,
sua claridade concreta,
seu desprezo
ao ouropel vazio,
à oca abstração editorial.
Ele foi diretamente
desenlaçando o nó
e mostrando a reta
claridade da linha,
entrando nos problemas
sem as frases que ocultando
o vazio,
direto ao centro débil
que em nossa luta retificaremos
podando as folhagens
e mostrando o desígnio dos frutos.
Stalin é o meio-dia,
A madureza dos homens e dos povos.
Na guerra o viram
as cidades queimadas
extrair do escombro
a esperança,
refundida de novo,
fazê-la aço,
a atacar com seus raios
destruindo
a fortificação das trevas.
Mas também ajudou as macieiras
da Sibéria
a dar suas frutas debaixo da tormenta.

Ensinou a todos
a crescer, a crescer,
plantas e metais,
criaturas e rios
ensinou-lhes a crescer,
a dar frutos e fogo.
Ensinou-lhe a Paz
e assim deteve
com seu peito estendido
os lobos da guerra.

Diante do mar de Ilha Negra, na manhã,
icei a meia haste a bandeira do Chile.
Estava solitária a costa e uma névoa de prata
se mesclava à espuma solene do oceano,
Em metade do seu mastro, no campo de azul,
a estrela solitária de minha pátria
parecia uma lágrima entre o céu e a terra.
Passou um homem do povo, saudou compreendendo,
e tirou o chapéu.
Veio um rapaz e me apertou a mão.

Mais tarde o pescador de ouriços, o velho búzio
e poeta,
Gonzalito, acercou-se para acompanhar-me sob a bandeira.
“Era mais sábio que todos os homens juntos”, me disse
olhando o mar com seus velhos olhos, com velhos
olhos do povo.
E logo por longo instante não nos falamos nada.
Uma onda
estremeceu as pedras da margem.
“Porém Malenkov agora continuará sua obra”, prosseguiu
levantando-se o pobre pescador de jaqueta surrada.
Eu o fitei surpreendido pensando: como, como o sabe?
De onde, nesta costa solitária?
E compreendi que o mar lhe havia ensinado.

E ali velamos juntos, um poeta
um pescador e o mar
ao Capitão remoto que ao entrar na morte
deixou a todos os povos, como herança, a vida.



Pablo Neruda

Conferências/Seminários | Jerónimo de Sousa - Sessão Evocativa do Centenário de Álvaro Cunhal (2013)