O conhecimento
das condições em que se processaram as relações da República de
1910 e seus dirigentes com a Rússia revolucionária, antes e depois
da Revolução Socialista de Outubro, bem como das posições da
comunicação social republicana de referência à época,
afigura-se-nos de grande importância para a compreensão da natureza
de classe do regime implantado em 5 de Outubro de 1910 e de como
Portugal continuava a ser um protectorado inglês, apesar da retórica
republicana sobre a soberania nacional.
As
causas que determinaram as posições face à revolução soviética
na Rússia têm uma longa história e continuam a estar presentes de
forma marcante na vida política nacional dos nossos dias, razão
talvez porque tenha caído um silêncio de chumbo sobre estas
matérias na panóplia de escritos e iniciativas para assinalar o
centenário da República.
Mais do que relembrar orientações
políticas do passado, esta questão tem a importância de mostrar
que, com excepção de um período relativamente curto em que, em
consequência do desenvolvimento da Revolução de Abril, Portugal
assumiu inequivocamente posições anti-imperialistas e de
solidariedade com a luta dos povos – princípios que vieram a ter
consagração constitucional –, as políticas das classes
dominantes portuguesas, quer as executadas por partidos monárquicos,
republicanos, fascistas, quer pelo Partido Socialista dito laico e
republicano, ou por partidos de direita no Portugal de Abril,
traduzem-se num longo historial de abdicação dos interesses
nacionais, de subserviência face ao imperialismo e são responsáveis
pelo envolvimento de Portugal em sujas operações e agressões
contra a independência e a soberania dos povos e a sua luta
libertadora e emancipadora.
O
envolvimento de Portugal na luta contra a Revolução francesa, a
Comuna de Paris, a Revolução de Outubro, a Espanha Republicana; a
participação em diferentes períodos nas operações da NATO; a
submissão aos ditames da União Europeia; a participação nas
agressões à Jugoslávia, ao Iraque e ao Afeganistão; o sistemático
apoio às políticas agressivas do imperialismo americano –
mostram-nos que as classes dominantes fazem da submissão ao
imperialismo uma espécie de seguro de garantia para a sua
sobrevivência. Mostram-nos igualmente que na luta contra os
trabalhadores e os povos «a burguesia actua como classe social
única» e que os seus interesses de classe exploradora se sobrepõem
aos interesses da defesa da independência e soberania nacionais,
princípios que estão na origem do corte de relações do nosso país
com a Rússia Soviética no início de 1918, no apoio às agressões
imperialistas contra o Estado socialista e no envolvimento do
Portugal republicano na «sagrada cruzada» internacional contra a
«hidra» bolchevique.
As
relações diplomáticas e comerciais de Portugal com o império
russo estruturaram-se ao longo do século XVIII. Remonta a 1778 a
nomeação do primeiro embaixador português na Rússia e a 1787 a
assinatura de um tratado de comércio – Tratado de Amizade,
Navegação e Comércio. (1)
As
relações comerciais chegaram a atingir importância significativa
e, em 1799, Portugal estabeleceu mesmo um Tratado de Aliança
Defensiva com a Rússia, ainda que tivesse ficado a aguardar parecer
da Grã-Bretanha.
Quando
estiveram em causa disputas territoriais, a Rússia apoiou Portugal.
Fê-lo na Conferência de Berlim (1885); na Conferência de Bruxelas
(1890); na Conferência de Haia (1907). Por ocasião do ultimato
inglês (1890), analisando a falta de apoio das diversas potências a
Portugal, o ministro de Portugal em S. Petersburgo comentava ser a
Rússia a única que abertamente apoiava Portugal (2).
À
data da implantação da República, a Legação portuguesa em S.
Petersburgo era uma das mais importantes. E não deixa de reflectir a
importância estratégica que a Rússia atribuía a Portugal para as
suas incursões no Mediterrâneo o facto deste país, um Estado
monárquico, ter sido dos primeiros a reconhecer a República
portuguesa.
Mas
a Rússia era uma monarquia autocrática, «prisão de povos»,
«chapéu de chuva» da reacção europeia, que se havia tornado num
dos principais centros de contradições inter-imperialistas e para
onde se tinha deslocado o centro do movimento revolucionário. Por
outro lado, Lénine, ao analisar a luta dos grandes Estados
imperialistas pela divisão do mundo, dizia que Portugal era um
daqueles países que do ponto de vista formal e político gozam de
independência, mas que na realidade se encontram envolvidos nas
malhas da dependência financeira e diplomática (3)
e
que, a esta luz, era um dos Estados que «há mais de duzentos anos
(…) está sob o protectorado de Inglaterra» (4).
Esta
realidade, agravada com o ultimato inglês de 1890, vai determinar
que, até à Revolução de 5 de Outubro, o Partido Republicano,
desfraldando a bandeira da defesa da soberania e da independência
nacionais, ganhe grande adesão popular, que a luta contra a
monarquia e o domínio inglês se tornem indissociáveis, a par da
denúncia da autocracia russa e da solidariedade para com os sectores
revolucionários russos, luta em que se inspirava e na qual
depositava grandes esperanças para o triunfo da República.
António
José de Almeida, preso na cadeia de Coimbra por ter escrito
«Bragança, o último», desfere, em novo artigo, um violento ataque
ao domínio inglês sobre Portugal, acusando a Inglaterra de tratar
os portugueses pior do que os negros das suas possessões, e exalta o
Niilismo russo, uma força que, como dizia, aumenta prodigiosamente
apesar da repressão. E talvez mais a pensar no rei D. Carlos do que
no czar, acrescenta que «o Niilismo há-de vencer, estilhando, por
ventura com uma bomba de dinamite, o corpo desse homem cuja memória
não possuirá um afecto, cujo cadáver será amortalhado em ódio»
(5).
A
defesa e a divulgação da acção dos niilistas russos, a
recomendação para que os portugueses se inspirassem nessa luta, a
divulgação de actos bombistas e a elevação dos seus promotores à
categoria de heróis supremos vão ser uma constante em escritos de
dirigentes e na imprensa republicana. É o caso do destaque dado ao
assassinato (Fev./1905) do governador de Moscovo, Gão-Duque Serguei
Alexandrovich, «condenado à morte por uma das numerosas sociedades
secretas que procuram conseguir a liberdade da Rússia» (6).
É assim a propósito de Maria Spiridova, implicada no atentado
contra o governador de Tambov e sobre o qual Maria Veleda escreveu:
«Ninguém se atreverá a sustentar que a mulher é cobarde lançando
os olhos para esse enorme campo de combate que é a Rússia, onde
tantas mulheres têm derramado o seu sangue generoso, em prol de um
ideal de libertação» (7).
É assim com a acção de Sofia Perowskaia, implicada no atentado
contra o czar Alexandre II, apresentada como exemplo do «terrorismo
vigoroso, a dinamite, a morte implacável aos espiões, aos déspotas»
(8).
A
revolução russa de 1905, confirmando as previsões de Marx e Engels
de que a verificar-se o desenvolvimento revolucionário na Rússia
uma revolução aí teria enorme ressonância e seria «um ponto de
viragem na história universal», veio dar grande impulso à luta
revolucionária na Europa e naturalmente também em Portugal.
Vários
órgãos de comunicação social republicanos, de forma regular e
circunstanciada vão dando notícias sobre «A revolução na
Rússia», deixando transparecer nítida simpatia pela revolução,
esperanças no seu triunfo e de que o seu exemplo frutifique em
Portugal.
A
par das notícias sobre as revoltas no Couraçado Potenkine e no
Couraçado Almirante «Seniavine», da luta armada do povo, da adesão
de diferentes camadas à revolução (camponeses, estudantes,
advogados, médicos), é igualmente dado grande relevo à luta da
classe operária, concluindo-se que «Uma das grandes forças da
revolução consiste sem dúvida no abandono das oficinas» (9).
O
movimento internacional em defesa da vida de Máximo Gorki atingiu
significativa expressão em Portugal, tendo O Século verberado o
crime que se preparava e feito um apelo à participação na campanha
em defesa da vida de Gorki. (10)
A
1 de Fevereiro de 1905 realiza-se na Associação dos Lojistas de
Lisboa uma reunião com o mesmo objectivo, de homens de letras,
jornalistas e artistas, com a participação de destacados dirigentes
do Partido Republicano. E uma outra no Ateneu Comercial de Lisboa,
amplamente participada de estudantes, contra a repressão na Rússia,
tendo sido aprovada uma moção que fazia votos «para que do
movimento revolucionário na Rússia raie para aquele povo um nova
era de justiça e de liberdade» (11),
bem como na Associação dos Advogados e na Associação dos
Caixeiros.
No
Porto, a iniciativa partiu da Associação dos Jornalistas e Homens
de Letras do Porto e em Coimbra realizou-se um comício de
solidariedade com o povo russo. (12)
As
informações enviadas pelo embaixador da Rússia em Lisboa ao seu
governo sobre a influência do movimento revolucionário russo em
Portugal são de grande importância para a avaliação dos efeitos
dessa influência. «Todas as notícias – dizia – sobre o que
acontece na Rússia, divulgadas em Portugal pelos revolucionários
russos que se acham no exterior, são imediatamente transmitidas pelo
telégrafo e publicadas pelos jornais portugueses com grande
destaque» (13).
E em uma outra informação, o embaixador reconhecia que «os eventos
revolucionários da Rússia constituem uma das causas da
intensificação da campanha anti-monárquica em Portugal» (14).
Mas
o embaixador não se dirigia só ao seu governo, dirigia-se
igualmente ao governo português, chamando-lhe a atenção para a
campanha anti-russa, diga-se anti-czarista, que se fazia
sistematicamente em Portugal.
Reciprocamente,
a luta pela República em Portugal era acompanhada com bastante
interesse na Rússia e em particular por Lénine, que escreveu vários
textos sobre Portugal e que, por altura do regicídio, quando se
fazia sentir a vozearia da reacção internacional contra os
revolucionários portugueses, se colocou sem ambiguidades ao lado
destes.
Mas
chegados ao poder, os republicanos mudam completamente de agulha,
tendo o seu programa sido metido na gaveta.
Do
apelo (aos governos monárquicos) para se recusar, no que toca à
Inglaterra, «pactos de amizade com quem poucos escrúpulos tem em
nos esmagar … e nos explorar», da classificação da Inglaterra
como «uma nação inimiga», de considerarem depois do ultimato,
«ofensivo do direito, do decoro e dos interesses da nação
portuguesa, tratar directamente com a Grã-Bretanha» (15),
ou ainda depois do Directório do PRP ter classificado a Inglaterra
de nova Cartago e de que todos os tratados com a Inglaterra tinham
«sido feitos exclusivamente em benefício da segurança dinástica»
(16),
a aliança com a Grã-Bretanha passou a ser considerada como uma das
condições da nossa existência nacional e uma sólida garantia da
integridade do nosso território continental e colonial.
Pelos
vistos, os dirigentes republicanos andavam redondamente enganados,
certamente por estarem mal informados, pois o Governo da República
sabe «que a lealdade nunca desmentida da Nação inglesa» e que os
tratados entre os dois países «são segura garantia … de que a
Inglaterra não consentirá que a integridade material e moral do seu
fiel aliado sofra qualquer prejuízo» (17).
Como
explicar tamanha reviravolta nas posições dos governantes
republicanos? É que o poder republicano, tendo decidido prosseguir a
política monárquica de rapina em relação às colónias, precisava
para isso de contar com o apoio da Inglaterra, mesmos sabendo
tratar-se de um aliado que sempre consideraram pouco fiável e que
havia incluído as colónias portuguesas no «catálogo» dos
negócios para a partilha do mundo.
Com
o envolvimento de Portugal na I Guerra Mundial, Portugal republicano
assume claramente a sua condição de protectorado inglês, amarra os
seus destinos ao carro de guerra imperialista, ambiciona participar
na nova partilha do mundo e integra-se empenhadamente na «sagrada
aliança» contra a Rússia Soviética e o movimento revolucionário
em geral, política que veio a custar muito caro ao povo português e
mesmo a largos sectores republicanos.
Quando
já se perspectivava o início da guerra, o governo de Bernardino
Machado, a 1/8/1914, seguindo a via da subserviência face à
Grã-Bretanha, encarrega o representante português em Londres
(Teixeira Gomes) de obter junto do Foreign Office quaisquer
declarações que pudessem «guiar com segurança» a posição a
tomar por Portugal. Um dia depois, e dado que Portugal não podia
deixar de ter posição, nova insistência junto de Teixeira Gomes
para obter resposta do Foreign Office, acrescentando-se que Portugal
desejava ter uma atitude de neutralidade, mas que não podia fazê-lo
sem se saber se a Inglaterra «não desejará de nós qualquer
manifestação diferente».
Dois
anos depois coube ao governo de Afonso Costa cometer um dos mais
escandalosos actos próprios dos protectorados ao utilizar o
argumentário redigido por Inglaterra na resposta a dar ao governo
alemão, fundamentando as razões para o apressamento dos navios
alemães em portos portugueses. (18)
Já
envolvido na guerra, ao eclodir a Revolução de Fevereiro e depois a
de Outubro na Rússia, Portugal que tinha abdicado de ter uma
política externa própria, vai continuar na via da subserviência
face à Inglaterra e outras potências ocidentais, e tal como fizera
a monarquia no período da Comuna de Paris e no combate aos membros
da Internacional, alia-se à reacção internacional e seus serviços
policiais, contra a Rússia Soviética e à sua influência no mundo.
Logo
após a revolução democrática-burguesa (Revolução de Fevereiro),
o MNE (20/3/1917) dava indicação ao embaixador português na Rússia
para proceder de acordo com os Aliados. E quando em Setembro é
derrubada a monarquia e instaurada a República na Rússia, são
transmitidas instruções ao embaixador português na Rússia para
«proceder inteiramente em conformidade com o representante da
Inglaterra». Posicionamento que se repetiu e, de forma ainda mais
enfática, quando teve lugar a Revolução Socialista de Outubro,
levando Portugal republicano, que não havia chegado a reconhecer a
instauração da República democrático-burguesa na Rússia, a
cortar relações, no começo de 1918, com o Estado soviético.
O
anti-comunismo torna-se na ideologia das classes dominantes contra o
movimento operário. A imprensa reaccionária e republicana, bem como
diplomatas portugueses instalados em algumas capitais europeias, numa
sintonia perfeita, lançam-se numa desenfreada campanha
anti-comunista, classificando os bolcheviques de criminosos, de
bandidos, gente capaz das coisas mais horrorosas. Lénine é
apresentado como um mentecapto e agente alemão.
A
situação na Rússia é descrita como o inferno na terra, e o
comunismo como uma terrível praga que ameaçava o mundo, exigindo-se
mão dura para o combater. A luta social e os sindicatos equiparados
a inimigos internos, agindo às ordens de Moscovo. Segundo o
embaixador português na Rússia, grande parte dos dinheiros obtidos
com a nacionalização dos bancos tinha sido para «a propaganda
anarquista em todo o mundo».
A
repressão ao bolchevismo passa a ser uma preocupação dos governos
da República.
Para
evitar a «desordem» em que teria caído a Rússia, o governo da
República, seguindo o exemplo de outros países, vai «reprimir com
a maior energia qualquer tentativa ou movimento revolucionário ou
sovietista» (19).
Na
sequência da greve geral de Novembro de 1918, seguem-se as
proclamações: «Todo o país repele com energia a desordem
bolchevique» (20).
Portugal
integra o Bureau Inter-Aliado, sediado em Paris, o qual procede à
sistematização e troca de informações sobre elementos
bolcheviques, ou tão só suspeitos de o serem, em vários países,
bem como à troca de informações e experiências do que cada Estado
faz para combater o bolchevismo.
Com
o desenvolvimento do movimento operário, do apoio à Revolução
soviética, do aparecimento de A Bandeira Vermelha, da formação da
Federação Maximalista e da criação do PCP, vai-se estruturando um
aparelho policial especializado na perseguição aos elementos
«indesejáveis», os bolcheviques. (21)
A
Bandeira Vermelha é apreendida várias vezes. Dezenas e dezenas de
simples distribuidores do jornal, membros da Federação Maximalista,
membros do Partido, ou tão só por suspeita de serem bolcheviques,
são presos. A polícia vigia iniciativas do Partido. E tudo isto, a
par da maior complacência para com a ameaça fascista que era já
uma realidade.
Os
golpistas do falhado golpe de Abril de 1925 (ensaio do que viria a
ser o golpe do 28 de Maio) são todos absolvidos, mas a 5 de Maio de
1926, às vésperas do golpe fascista, são presos vários membros do
PCP, entre eles o destacado militante Roque Júnior, acusados de
«terem elaborado o plano X para a tomada do poder».
Contra
o jovem Estado soviético congregaram-se forças poderosas. Inimigas
de ontem, entenderam-se para tentar esmagar um Estado que, pela força
do exemplo, ameaçava os interesses da burguesia à escala mundial.
Já
antes da Revolução de Outubro, quando crescia a influência do
bolchevismo e se revelava incerto o destino do Governo Provisório, o
embaixador americano propunha ao seu governo o envio de tropas para
«auxiliar» o povo russo. E como o respeito pela soberania dos povos
não é coisa que tolhesse os imperialistas, a 24 de Outubro de 1917
(calendário antigo) perguntava ao secretário de Estado o que
pensava do envio de duas ou mais divisões do exército americano se
conseguisse «o consentimento do governo russo para isso, ou até
mesmo conseguir obrigá-lo a fazer esse pedido» (22).
A
resposta não deve ter chegado a tempo. No dia seguinte confirmam-se
as preocupações do embaixador americano e de outros embaixadores,
incluindo o português, os bolcheviques tomaram o poder. A onda
revolucionária alastra pelo mundo fora e com isso o pânico nos
países imperialistas.
O
ambiente que se vivia no campo imperialista pode ser avaliado pelas
anotações do coronel House, conselheiro do presidente dos Estados
Unidos, Wilson: «O bolchevismo está a ganhar terreno por toda a
parte (…). Estamos sentados em cima de um paiol de pólvora a
descoberto e qualquer dia uma faísca pode fazê-lo explodir» (23).
Da mesma visão partilhava o presidente francês, ao defender a
necessidade de se criar «Um cordão sanitário em relação ao
comunismo».
Os
insucessos das operações dos grupos contra-revolucionários,
armados e orientados pelas potências imperialistas, o fracasso dos
processos separatistas fomentados pela Entente, colocaram no campo
das acções práticas a invasão da Rússia Soviética por uma
coligação imperialista liderada pelos EUA, emergido à condição
de principal potência imperialista em consequência da guerra,
agressão a que o governo português vai dar o seu incondicional
apoio.
As
citações que se seguem são porventura longas, mas elas mostram que
a natureza do imperialismo não muda, que o argumentário e pretexto
de Bush para atacar o Iraque há muito fazem parte da política
americana e que o serventuário Durão Barroso, para nossa desgraça,
faz parte de uma velha linhagem de serventuários.
A
1 de Outubro de 1918, o responsável da delegação dos EUA, T. H.
Brich, entrega ao MNE português um ofício do seu governo
comunicando que, tendo o governo dos EUA recebido «uma informação
de fonte segura revelando que os cidadãos russos pacíficos de
Moscovo, Petrogrado e outras cidades estão sofrendo uma campanha de
intenso terrorismo e são sujeitos a execuções em massa», e
correspondendo ao «ardente desejo do povo dos EUA de auxiliar o povo
russo», e «unicamente no interesse do próprio povo russo», «o
governo americano entende que não pode ficar silencioso» e que,
perante tantos crimes, «todas as nações civilizadas devem registar
o seu horror a tal barbaridade».
E
certo de que existiam armas de destruição massiva (os «crimes
bolcheviques»), o ministro americano diz ter sido encarregado de
perguntar ao governo português da sua disponibilidade para «adoptar
algum imediato procedimento», «para fazer sentir aos autores dos
crimes a aversão com que a civilização encara os seus presentes
actos de atrocidade» (24).
O
MNE de então, Dr. Egas Moniz, não se mostrou menos subserviente do
que Durão Barroso no caso do Iraque. Tomando como certa a informação
fornecida pelos EUA quanto às «abomináveis atrocidades
bolcheviques», Egas Moniz considera que a sugestão de uma
intervenção contra a Rússia Soviética «redobra de significação
e alcance com o partir da grande democracia americana», pelo que
essa intervenção «encontra no povo português o acolhimento de que
é merecedora pela sua nobre intenção». Assim, «o Governo
Português acompanhará com a maior simpatia no seguimento que o
Governo dos Estados Unidos da América entender imprimir-lhe» (25).
O
governo dos EUA dirigiu-se naturalmente a vários outros países no
mesmo sentido. A seguir entrou em cena a comunicação social
dominante no sentido de preparar a opinião pública para aceitar
como natural os crimes «civilizacionais» do imperialismo.
A
11 de Novembro, o Acordo de Armistício estabelecido entre as
potências imperialistas vencedoras e a Alemanha, acordo cujos
princípios haviam sido definidos pelos EUA, estipulava, no seu art.º
XVI, que os alemães deviam evacuar os territórios do Leste Europeu,
que o Acordo de Brest-Litovski ficava sem efeito e que os aliados
teriam livre acesso aos territórios evacuados, afim de poderem
reabastecer as populações e manter a ordem.
A
imprensa dominante encarrega-se de explicar o verdadeiro significado
deste palavreado. O Século publicava (13/XI/1918) um telegrama de
Londres, dizendo que «A opinião pública acolheu favoravelmente a
proposta do governo americano aos governos aliados para intervirem na
Rússia com o fim exclusivo de restabelecer a ordem contra os
“bolcheviques” e “maximalistas”» e que os aliados
«intervirão onde a desordem social tomar o aspecto grave do
sovietismo».
Os
títulos e as notícias de que a Entente iria esmagar a «hidra»
bolchevique, vão-se multiplicando, mas os imperialistas e seus
propagandistas enganaram-se retundamente. O povo russo, os operários
e camponeses deram provas de grande determinação na defesa do
primeiro Estado operário-camponês da história, obrigando os
poderosos invasores a regressar a casa.
Alguns
Estados acharam por bem reconhecer a nova realidade e começar a
estabelecer relações económicas com a Rússia Soviética, o que
não aconteceu com a República portuguesa. Como muitas vezes
acontece, os lacaios revelam-se piores do que os seus senhores.
Em
Maio de 1924, quando o Estado soviético já tinha sido reconhecido
por vários Estados, incluindo monarquias europeias, o deputado João
Camoesas interpela na Câmara dos Deputados o MNE, Domingos Pereira,
sobre o porquê da República portuguesa ainda não ter reconhecido a
República Federativa dos Sovietes da Rússia, tanto mais que esse
reconhecimento afigurava-se-lhe «de um acto inteiramente necessário
ao país, visto que desse reconhecimento poderia derivar o
restabelecimento de relações de carácter comercial, do mais alto
interesse para nós» (26).
O deputado chamou ainda a atenção de que «não há razão para não
criar um desafogo aos produtos portugueses», alguns dos quais
atravessando bastantes dificuldades, como era o caso da cortiça,
essa importante riqueza nacional e de que a Rússia até era
importadora. Além disso, acrescentava o deputado, Portugal tinha uma
balança comercial deficitária.
A
resposta do ministro Domingos Pereira é esclarecedora quanto à
política externa da República. «O Governo português, na hora
própria cumprirá o seu dever reconhecendo a existência da
República da Rússia. Mas será apenas na hora própria». E quanto
aos interesses económicos do país, não lhe parecia que «sofram
muito com a conservação da situação actual» (27).
(itálicos meus) A «hora própria» estava nas mãos da Inglaterra
decidir, só que nessa altura já delegações da Rússia e da
Inglaterra se encontravam em Londres para regularizar as relações
entre os dois países, coisa que nunca os governos republicanos
fizeram e Salazar, obviamente, também não. Foi preciso esperar pelo
25 de Abril para que Portugal reconhecesse a União Soviética.
Notas
(1)
Rómulo de Carvalho, «Relações entre Portugal e a Rússia no
Século XVIII», edições Sá da Costa, 1979, p. 106.
Catálogo
Exposição «Relações entre Portugal e a Rússia. Séculos XVIII
a XX», edições Colibri, 1999, p. 123.
Lénine,
Obras Escolhidas em 3 volumes, I Vol., Edições «Avante!»,
Lisboa, 1977, p. 639.
Idem.
A.
José de Almeida, «Palavras de um Intransigente», in «Portugal em
crise», edições Fronteira do Caos», 2006, p. 117.
«Illustração
Portuguesa», n.º 69, de 27/2/1905.
Maria
Veleda, «Vanguarda», de 16/9/1909.
Semanário
«A Economia», Ano II, n.º 82, de 14/8/1910.
«Illustração
Portuguesa, n.º 68, de 20/2/1905.
O
Século, de 1/2/1905.
O
Século, de 2/2/1905.
Idem.
Nikolai
Emifov, «Revolução de 1910», in Revista Internacional.
Idem.
Manuel
Arriaga, «Intervenção na Câmara dos Deputados», in «Portugal
em crise», edições Fronteira do Caos, p. 129.
Joel
Serrão, «Liberalismo, Socialismo, Republicanismo», edições
Livros Horizonte, 1979, p. 260.
«Documentos
apresentados ao Congresso da República em 1920 pelo MNE, Portugal
no conflito europeu, 1.ª parte, Negociações até à declaração
de guerra», edições Imprensa Nacional – 1920, p. 199.
Idem.
Ver Documentos, n.º 1 e n.º 2, p. 3; n.º 331, p. 233; e n.º 349,
p. 246.
O
Primeiro de Janeiro, de 19/11/1918.
«A
Situação, Diário Republicano da Manhã», de 21/11/1918.
Sobre
a repressão aos bolcheviques, ver Silvestre Lacerda, «A República
e o temor ao bolchevismo», in O Militante, N.º 305.
«História
da Grande Revolução Socialista de Outubro», edições Progresso,
1977, p. 174.
Rudolf
L. Tonés, «Bela Kun and Hungarian Soviet Republic, N. Yorque,
1967, p. 143, in «A Europa desde 1870», Jonas Jole, edições D.
Quixote, p. 368.
Joaquim
Palminha, «Jaime Batalha Reis na Rússia dos Sovietes ou Dez Dias
que Abalaram um Diplomata Português, edições Afrontamento, Porto,
1984, p. 227.
Idem,
p. 228.
Câmara
dos Deputados, Sessão n.º 90, de 27/5/1924, p. 5.
Idem,
p. 7.