quarta-feira, 24 de abril de 2013

Artigos de Opinião | Domingos Abrantes - A República e a Rússia Revolucionária




O conhecimento das condições em que se processaram as relações da República de 1910 e seus dirigentes com a Rússia revolucionária, antes e depois da Revolução Socialista de Outubro, bem como das posições da comunicação social republicana de referência à época, afigura-se-nos de grande importância para a compreensão da natureza de classe do regime implantado em 5 de Outubro de 1910 e de como Portugal continuava a ser um protectorado inglês, apesar da retórica republicana sobre a soberania nacional.

As causas que determinaram as posições face à revolução soviética na Rússia têm uma longa história e continuam a estar presentes de forma marcante na vida política nacional dos nossos dias, razão talvez porque tenha caído um silêncio de chumbo sobre estas matérias na panóplia de escritos e iniciativas para assinalar o centenário da República.

Mais do que relembrar orientações políticas do passado, esta questão tem a importância de mostrar que, com excepção de um período relativamente curto em que, em consequência do desenvolvimento da Revolução de Abril, Portugal assumiu inequivocamente posições anti-imperialistas e de solidariedade com a luta dos povos – princípios que vieram a ter consagração constitucional –, as políticas das classes dominantes portuguesas, quer as executadas por partidos monárquicos, republicanos, fascistas, quer pelo Partido Socialista dito laico e republicano, ou por partidos de direita no Portugal de Abril, traduzem-se num longo historial de abdicação dos interesses nacionais, de subserviência face ao imperialismo e são responsáveis pelo envolvimento de Portugal em sujas operações e agressões contra a independência e a soberania dos povos e a sua luta libertadora e emancipadora.

O envolvimento de Portugal na luta contra a Revolução francesa, a Comuna de Paris, a Revolução de Outubro, a Espanha Republicana; a participação em diferentes períodos nas operações da NATO; a submissão aos ditames da União Europeia; a participação nas agressões à Jugoslávia, ao Iraque e ao Afeganistão; o sistemático apoio às políticas agressivas do imperialismo americano – mostram-nos que as classes dominantes fazem da submissão ao imperialismo uma espécie de seguro de garantia para a sua sobrevivência. Mostram-nos igualmente que na luta contra os trabalhadores e os povos «a burguesia actua como classe social única» e que os seus interesses de classe exploradora se sobrepõem aos interesses da defesa da independência e soberania nacionais, princípios que estão na origem do corte de relações do nosso país com a Rússia Soviética no início de 1918, no apoio às agressões imperialistas contra o Estado socialista e no envolvimento do Portugal republicano na «sagrada cruzada» internacional contra a «hidra» bolchevique.

As relações diplomáticas e comerciais de Portugal com o império russo estruturaram-se ao longo do século XVIII. Remonta a 1778 a nomeação do primeiro embaixador português na Rússia e a 1787 a assinatura de um tratado de comércio – Tratado de Amizade, Navegação e Comércio.
(1)

As relações comerciais chegaram a atingir importância significativa e, em 1799, Portugal estabeleceu mesmo um Tratado de Aliança Defensiva com a Rússia, ainda que tivesse ficado a aguardar parecer da Grã-Bretanha.

Quando estiveram em causa disputas territoriais, a Rússia apoiou Portugal. Fê-lo na Conferência de Berlim (1885); na Conferência de Bruxelas (1890); na Conferência de Haia (1907). Por ocasião do ultimato inglês (1890), analisando a falta de apoio das diversas potências a Portugal, o ministro de Portugal em S. Petersburgo comentava ser a Rússia a única que abertamente apoiava Portugal
(2).

À data da implantação da República, a Legação portuguesa em S. Petersburgo era uma das mais importantes. E não deixa de reflectir a importância estratégica que a Rússia atribuía a Portugal para as suas incursões no Mediterrâneo o facto deste país, um Estado monárquico, ter sido dos primeiros a reconhecer a República portuguesa.

Mas a Rússia era uma monarquia autocrática, «prisão de povos», «chapéu de chuva» da reacção europeia, que se havia tornado num dos principais centros de contradições inter-imperialistas e para onde se tinha deslocado o centro do movimento revolucionário. Por outro lado, Lénine, ao analisar a luta dos grandes Estados imperialistas pela divisão do mundo, dizia que Portugal era um daqueles países que do ponto de vista formal e político gozam de independência, mas que na realidade se encontram envolvidos nas malhas da dependência financeira e diplomática
(3) e que, a esta luz, era um dos Estados que «há mais de duzentos anos (…) está sob o protectorado de Inglaterra» (4).


Esta realidade, agravada com o ultimato inglês de 1890, vai determinar que, até à Revolução de 5 de Outubro, o Partido Republicano, desfraldando a bandeira da defesa da soberania e da independência nacionais, ganhe grande adesão popular, que a luta contra a monarquia e o domínio inglês se tornem indissociáveis, a par da denúncia da autocracia russa e da solidariedade para com os sectores revolucionários russos, luta em que se inspirava e na qual depositava grandes esperanças para o triunfo da República.

António José de Almeida, preso na cadeia de Coimbra por ter escrito «Bragança, o último», desfere, em novo artigo, um violento ataque ao domínio inglês sobre Portugal, acusando a Inglaterra de tratar os portugueses pior do que os negros das suas possessões, e exalta o Niilismo russo, uma força que, como dizia, aumenta prodigiosamente apesar da repressão. E talvez mais a pensar no rei D. Carlos do que no czar, acrescenta que «o Niilismo há-de vencer, estilhando, por ventura com uma bomba de dinamite, o corpo desse homem cuja memória não possuirá um afecto, cujo cadáver será amortalhado em ódio»
(5).

A defesa e a divulgação da acção dos niilistas russos, a recomendação para que os portugueses se inspirassem nessa luta, a divulgação de actos bombistas e a elevação dos seus promotores à categoria de heróis supremos vão ser uma constante em escritos de dirigentes e na imprensa republicana. É o caso do destaque dado ao assassinato (Fev./1905) do governador de Moscovo, Gão-Duque Serguei Alexandrovich, «condenado à morte por uma das numerosas sociedades secretas que procuram conseguir a liberdade da Rússia»
(6). É assim a propósito de Maria Spiridova, implicada no atentado contra o governador de Tambov e sobre o qual Maria Veleda escreveu: «Ninguém se atreverá a sustentar que a mulher é cobarde lançando os olhos para esse enorme campo de combate que é a Rússia, onde tantas mulheres têm derramado o seu sangue generoso, em prol de um ideal de libertação» (7). É assim com a acção de Sofia Perowskaia, implicada no atentado contra o czar Alexandre II, apresentada como exemplo do «terrorismo vigoroso, a dinamite, a morte implacável aos espiões, aos déspotas» (8).

A revolução russa de 1905, confirmando as previsões de Marx e Engels de que a verificar-se o desenvolvimento revolucionário na Rússia uma revolução aí teria enorme ressonância e seria «um ponto de viragem na história universal», veio dar grande impulso à luta revolucionária na Europa e naturalmente também em Portugal.

Vários órgãos de comunicação social republicanos, de forma regular e circunstanciada vão dando notícias sobre «A revolução na Rússia», deixando transparecer nítida simpatia pela revolução, esperanças no seu triunfo e de que o seu exemplo frutifique em Portugal.

A par das notícias sobre as revoltas no Couraçado Potenkine e no Couraçado Almirante «Seniavine», da luta armada do povo, da adesão de diferentes camadas à revolução (camponeses, estudantes, advogados, médicos), é igualmente dado grande relevo à luta da classe operária, concluindo-se que «Uma das grandes forças da revolução consiste sem dúvida no abandono das oficinas»
(9).

O movimento internacional em defesa da vida de Máximo Gorki atingiu significativa expressão em Portugal, tendo O Século verberado o crime que se preparava e feito um apelo à participação na campanha em defesa da vida de Gorki.
(10)

A 1 de Fevereiro de 1905 realiza-se na Associação dos Lojistas de Lisboa uma reunião com o mesmo objectivo, de homens de letras, jornalistas e artistas, com a participação de destacados dirigentes do Partido Republicano. E uma outra no Ateneu Comercial de Lisboa, amplamente participada de estudantes, contra a repressão na Rússia, tendo sido aprovada uma moção que fazia votos «para que do movimento revolucionário na Rússia raie para aquele povo um nova era de justiça e de liberdade»
(11), bem como na Associação dos Advogados e na Associação dos Caixeiros.

No Porto, a iniciativa partiu da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto e em Coimbra realizou-se um comício de solidariedade com o povo russo.
(12)

As informações enviadas pelo embaixador da Rússia em Lisboa ao seu governo sobre a influência do movimento revolucionário russo em Portugal são de grande importância para a avaliação dos efeitos dessa influência. «Todas as notícias – dizia – sobre o que acontece na Rússia, divulgadas em Portugal pelos revolucionários russos que se acham no exterior, são imediatamente transmitidas pelo telégrafo e publicadas pelos jornais portugueses com grande destaque»
(13). E em uma outra informação, o embaixador reconhecia que «os eventos revolucionários da Rússia constituem uma das causas da intensificação da campanha anti-monárquica em Portugal» (14).

Mas o embaixador não se dirigia só ao seu governo, dirigia-se igualmente ao governo português, chamando-lhe a atenção para a campanha anti-russa, diga-se anti-czarista, que se fazia sistematicamente em Portugal.

Reciprocamente, a luta pela República em Portugal era acompanhada com bastante interesse na Rússia e em particular por Lénine, que escreveu vários textos sobre Portugal e que, por altura do regicídio, quando se fazia sentir a vozearia da reacção internacional contra os revolucionários portugueses, se colocou sem ambiguidades ao lado destes.

Mas chegados ao poder, os republicanos mudam completamente de agulha, tendo o seu programa sido metido na gaveta.

Do apelo (aos governos monárquicos) para se recusar, no que toca à Inglaterra, «pactos de amizade com quem poucos escrúpulos tem em nos esmagar … e nos explorar», da classificação da Inglaterra como «uma nação inimiga», de considerarem depois do ultimato, «ofensivo do direito, do decoro e dos interesses da nação portuguesa, tratar directamente com a Grã-Bretanha»
(15), ou ainda depois do Directório do PRP ter classificado a Inglaterra de nova Cartago e de que todos os tratados com a Inglaterra tinham «sido feitos exclusivamente em benefício da segurança dinástica» (16), a aliança com a Grã-Bretanha passou a ser considerada como uma das condições da nossa existência nacional e uma sólida garantia da integridade do nosso território continental e colonial.

Pelos vistos, os dirigentes republicanos andavam redondamente enganados, certamente por estarem mal informados, pois o Governo da República sabe «que a lealdade nunca desmentida da Nação inglesa» e que os tratados entre os dois países «são segura garantia … de que a Inglaterra não consentirá que a integridade material e moral do seu fiel aliado sofra qualquer prejuízo»
(17).

Como explicar tamanha reviravolta nas posições dos governantes republicanos? É que o poder republicano, tendo decidido prosseguir a política monárquica de rapina em relação às colónias, precisava para isso de contar com o apoio da Inglaterra, mesmos sabendo tratar-se de um aliado que sempre consideraram pouco fiável e que havia incluído as colónias portuguesas no «catálogo» dos negócios para a partilha do mundo.

Com o envolvimento de Portugal na I Guerra Mundial, Portugal republicano assume claramente a sua condição de protectorado inglês, amarra os seus destinos ao carro de guerra imperialista, ambiciona participar na nova partilha do mundo e integra-se empenhadamente na «sagrada aliança» contra a Rússia Soviética e o movimento revolucionário em geral, política que veio a custar muito caro ao povo português e mesmo a largos sectores republicanos.

Quando já se perspectivava o início da guerra, o governo de Bernardino Machado, a 1/8/1914, seguindo a via da subserviência face à Grã-Bretanha, encarrega o representante português em Londres (Teixeira Gomes) de obter junto do Foreign Office quaisquer declarações que pudessem «guiar com segurança» a posição a tomar por Portugal. Um dia depois, e dado que Portugal não podia deixar de ter posição, nova insistência junto de Teixeira Gomes para obter resposta do Foreign Office, acrescentando-se que Portugal desejava ter uma atitude de neutralidade, mas que não podia fazê-lo sem se saber se a Inglaterra «não desejará de nós qualquer manifestação diferente».

Dois anos depois coube ao governo de Afonso Costa cometer um dos mais escandalosos actos próprios dos protectorados ao utilizar o argumentário redigido por Inglaterra na resposta a dar ao governo alemão, fundamentando as razões para o apressamento dos navios alemães em portos portugueses.
(18)

Já envolvido na guerra, ao eclodir a Revolução de Fevereiro e depois a de Outubro na Rússia, Portugal que tinha abdicado de ter uma política externa própria, vai continuar na via da subserviência face à Inglaterra e outras potências ocidentais, e tal como fizera a monarquia no período da Comuna de Paris e no combate aos membros da Internacional, alia-se à reacção internacional e seus serviços policiais, contra a Rússia Soviética e à sua influência no mundo.

Logo após a revolução democrática-burguesa (Revolução de Fevereiro), o MNE (20/3/1917) dava indicação ao embaixador português na Rússia para proceder de acordo com os Aliados. E quando em Setembro é derrubada a monarquia e instaurada a República na Rússia, são transmitidas instruções ao embaixador português na Rússia para «proceder inteiramente em conformidade com o representante da Inglaterra». Posicionamento que se repetiu e, de forma ainda mais enfática, quando teve lugar a Revolução Socialista de Outubro, levando Portugal republicano, que não havia chegado a reconhecer a instauração da República democrático-burguesa na Rússia, a cortar relações, no começo de 1918, com o Estado soviético.

O anti-comunismo torna-se na ideologia das classes dominantes contra o movimento operário. A imprensa reaccionária e republicana, bem como diplomatas portugueses instalados em algumas capitais europeias, numa sintonia perfeita, lançam-se numa desenfreada campanha anti-comunista, classificando os bolcheviques de criminosos, de bandidos, gente capaz das coisas mais horrorosas. Lénine é apresentado como um mentecapto e agente alemão.

A situação na Rússia é descrita como o inferno na terra, e o comunismo como uma terrível praga que ameaçava o mundo, exigindo-se mão dura para o combater. A luta social e os sindicatos equiparados a inimigos internos, agindo às ordens de Moscovo. Segundo o embaixador português na Rússia, grande parte dos dinheiros obtidos com a nacionalização dos bancos tinha sido para «a propaganda anarquista em todo o mundo».

A repressão ao bolchevismo passa a ser uma preocupação dos governos da República.

Para evitar a «desordem» em que teria caído a Rússia, o governo da República, seguindo o exemplo de outros países, vai «reprimir com a maior energia qualquer tentativa ou movimento revolucionário ou sovietista»
(19).

Na sequência da greve geral de Novembro de 1918, seguem-se as proclamações: «Todo o país repele com energia a desordem bolchevique»
(20).

Portugal integra o Bureau Inter-Aliado, sediado em Paris, o qual procede à sistematização e troca de informações sobre elementos bolcheviques, ou tão só suspeitos de o serem, em vários países, bem como à troca de informações e experiências do que cada Estado faz para combater o bolchevismo.

Com o desenvolvimento do movimento operário, do apoio à Revolução soviética, do aparecimento de A Bandeira Vermelha, da formação da Federação Maximalista e da criação do PCP, vai-se estruturando um aparelho policial especializado na perseguição aos elementos «indesejáveis», os bolcheviques.
(21)

A Bandeira Vermelha é apreendida várias vezes. Dezenas e dezenas de simples distribuidores do jornal, membros da Federação Maximalista, membros do Partido, ou tão só por suspeita de serem bolcheviques, são presos. A polícia vigia iniciativas do Partido. E tudo isto, a par da maior complacência para com a ameaça fascista que era já uma realidade.

Os golpistas do falhado golpe de Abril de 1925 (ensaio do que viria a ser o golpe do 28 de Maio) são todos absolvidos, mas a 5 de Maio de 1926, às vésperas do golpe fascista, são presos vários membros do PCP, entre eles o destacado militante Roque Júnior, acusados de «terem elaborado o plano X para a tomada do poder».

Contra o jovem Estado soviético congregaram-se forças poderosas. Inimigas de ontem, entenderam-se para tentar esmagar um Estado que, pela força do exemplo, ameaçava os interesses da burguesia à escala mundial.

Já antes da Revolução de Outubro, quando crescia a influência do bolchevismo e se revelava incerto o destino do Governo Provisório, o embaixador americano propunha ao seu governo o envio de tropas para «auxiliar» o povo russo. E como o respeito pela soberania dos povos não é coisa que tolhesse os imperialistas, a 24 de Outubro de 1917 (calendário antigo) perguntava ao secretário de Estado o que pensava do envio de duas ou mais divisões do exército americano se conseguisse «o consentimento do governo russo para isso, ou até mesmo conseguir obrigá-lo a fazer esse pedido»
(22).

A resposta não deve ter chegado a tempo. No dia seguinte confirmam-se as preocupações do embaixador americano e de outros embaixadores, incluindo o português, os bolcheviques tomaram o poder. A onda revolucionária alastra pelo mundo fora e com isso o pânico nos países imperialistas.

O ambiente que se vivia no campo imperialista pode ser avaliado pelas anotações do coronel House, conselheiro do presidente dos Estados Unidos, Wilson: «O bolchevismo está a ganhar terreno por toda a parte (…). Estamos sentados em cima de um paiol de pólvora a descoberto e qualquer dia uma faísca pode fazê-lo explodir»
(23). Da mesma visão partilhava o presidente francês, ao defender a necessidade de se criar «Um cordão sanitário em relação ao comunismo».

Os insucessos das operações dos grupos contra-revolucionários, armados e orientados pelas potências imperialistas, o fracasso dos processos separatistas fomentados pela Entente, colocaram no campo das acções práticas a invasão da Rússia Soviética por uma coligação imperialista liderada pelos EUA, emergido à condição de principal potência imperialista em consequência da guerra, agressão a que o governo português vai dar o seu incondicional apoio.

As citações que se seguem são porventura longas, mas elas mostram que a natureza do imperialismo não muda, que o argumentário e pretexto de Bush para atacar o Iraque há muito fazem parte da política americana e que o serventuário Durão Barroso, para nossa desgraça, faz parte de uma velha linhagem de serventuários.

A 1 de Outubro de 1918, o responsável da delegação dos EUA, T. H. Brich, entrega ao MNE português um ofício do seu governo comunicando que, tendo o governo dos EUA recebido «uma informação de fonte segura revelando que os cidadãos russos pacíficos de Moscovo, Petrogrado e outras cidades estão sofrendo uma campanha de intenso terrorismo e são sujeitos a execuções em massa», e correspondendo ao «ardente desejo do povo dos EUA de auxiliar o povo russo», e «unicamente no interesse do próprio povo russo», «o governo americano entende que não pode ficar silencioso» e que, perante tantos crimes, «todas as nações civilizadas devem registar o seu horror a tal barbaridade».

E certo de que existiam armas de destruição massiva (os «crimes bolcheviques»), o ministro americano diz ter sido encarregado de perguntar ao governo português da sua disponibilidade para «adoptar algum imediato procedimento», «para fazer sentir aos autores dos crimes a aversão com que a civilização encara os seus presentes actos de atrocidade»
(24).

O MNE de então, Dr. Egas Moniz, não se mostrou menos subserviente do que Durão Barroso no caso do Iraque. Tomando como certa a informação fornecida pelos EUA quanto às «abomináveis atrocidades bolcheviques», Egas Moniz considera que a sugestão de uma intervenção contra a Rússia Soviética «redobra de significação e alcance com o partir da grande democracia americana», pelo que essa intervenção «encontra no povo português o acolhimento de que é merecedora pela sua nobre intenção». Assim, «o Governo Português acompanhará com a maior simpatia no seguimento que o Governo dos Estados Unidos da América entender imprimir-lhe»
(25).

O governo dos EUA dirigiu-se naturalmente a vários outros países no mesmo sentido. A seguir entrou em cena a comunicação social dominante no sentido de preparar a opinião pública para aceitar como natural os crimes «civilizacionais» do imperialismo.

A 11 de Novembro, o Acordo de Armistício estabelecido entre as potências imperialistas vencedoras e a Alemanha, acordo cujos princípios haviam sido definidos pelos EUA, estipulava, no seu art.º XVI, que os alemães deviam evacuar os territórios do Leste Europeu, que o Acordo de Brest-Litovski ficava sem efeito e que os aliados teriam livre acesso aos territórios evacuados, afim de poderem reabastecer as populações e manter a ordem.

A imprensa dominante encarrega-se de explicar o verdadeiro significado deste palavreado. O Século publicava (13/XI/1918) um telegrama de Londres, dizendo que «A opinião pública acolheu favoravelmente a proposta do governo americano aos governos aliados para intervirem na Rússia com o fim exclusivo de restabelecer a ordem contra os “bolcheviques” e “maximalistas”» e que os aliados «intervirão onde a desordem social tomar o aspecto grave do sovietismo».

Os títulos e as notícias de que a Entente iria esmagar a «hidra» bolchevique, vão-se multiplicando, mas os imperialistas e seus propagandistas enganaram-se retundamente. O povo russo, os operários e camponeses deram provas de grande determinação na defesa do primeiro Estado operário-camponês da história, obrigando os poderosos invasores a regressar a casa.

Alguns Estados acharam por bem reconhecer a nova realidade e começar a estabelecer relações económicas com a Rússia Soviética, o que não aconteceu com a República portuguesa. Como muitas vezes acontece, os lacaios revelam-se piores do que os seus senhores.

Em Maio de 1924, quando o Estado soviético já tinha sido reconhecido por vários Estados, incluindo monarquias europeias, o deputado João Camoesas interpela na Câmara dos Deputados o MNE, Domingos Pereira, sobre o porquê da República portuguesa ainda não ter reconhecido a República Federativa dos Sovietes da Rússia, tanto mais que esse reconhecimento afigurava-se-lhe «de um acto inteiramente necessário ao país, visto que desse reconhecimento poderia derivar o restabelecimento de relações de carácter comercial, do mais alto interesse para nós»
(26). O deputado chamou ainda a atenção de que «não há razão para não criar um desafogo aos produtos portugueses», alguns dos quais atravessando bastantes dificuldades, como era o caso da cortiça, essa importante riqueza nacional e de que a Rússia até era importadora. Além disso, acrescentava o deputado, Portugal tinha uma balança comercial deficitária.

A resposta do ministro Domingos Pereira é esclarecedora quanto à política externa da República. «O Governo português, na hora própria cumprirá o seu dever reconhecendo a existência da República da Rússia. Mas será apenas na hora própria». E quanto aos interesses económicos do país, não lhe parecia que «sofram muito com a conservação da situação actual»
(27). (itálicos meus) A «hora própria» estava nas mãos da Inglaterra decidir, só que nessa altura já delegações da Rússia e da Inglaterra se encontravam em Londres para regularizar as relações entre os dois países, coisa que nunca os governos republicanos fizeram e Salazar, obviamente, também não. Foi preciso esperar pelo 25 de Abril para que Portugal reconhecesse a União Soviética.

Notas

(1) Rómulo de Carvalho, «Relações entre Portugal e a Rússia no Século XVIII», edições Sá da Costa, 1979, p. 106.
  1. Catálogo Exposição «Relações entre Portugal e a Rússia. Séculos XVIII a XX», edições Colibri, 1999, p. 123.
  2. Lénine, Obras Escolhidas em 3 volumes, I Vol., Edições «Avante!», Lisboa, 1977, p. 639.
  3. Idem.
  4. A. José de Almeida, «Palavras de um Intransigente», in «Portugal em crise», edições Fronteira do Caos», 2006, p. 117.
  5. «Illustração Portuguesa», n.º 69, de 27/2/1905.
  6. Maria Veleda, «Vanguarda», de 16/9/1909.
  7. Semanário «A Economia», Ano II, n.º 82, de 14/8/1910.
  8. «Illustração Portuguesa, n.º 68, de 20/2/1905.
  9. O Século, de 1/2/1905.
  10. O Século, de 2/2/1905.
  11. Idem.
  12. Nikolai Emifov, «Revolução de 1910», in Revista Internacional.
  13. Idem.
  14. Manuel Arriaga, «Intervenção na Câmara dos Deputados», in «Portugal em crise», edições Fronteira do Caos, p. 129.
  15. Joel Serrão, «Liberalismo, Socialismo, Republicanismo», edições Livros Horizonte, 1979, p. 260.
  16. «Documentos apresentados ao Congresso da República em 1920 pelo MNE, Portugal no conflito europeu, 1.ª parte, Negociações até à declaração de guerra», edições Imprensa Nacional – 1920, p. 199.
  17. Idem. Ver Documentos, n.º 1 e n.º 2, p. 3; n.º 331, p. 233; e n.º 349, p. 246.
  18. O Primeiro de Janeiro, de 19/11/1918.
  19. «A Situação, Diário Republicano da Manhã», de 21/11/1918.
  20. Sobre a repressão aos bolcheviques, ver Silvestre Lacerda, «A República e o temor ao bolchevismo», in O Militante, N.º 305.
  21. «História da Grande Revolução Socialista de Outubro», edições Progresso, 1977, p. 174.
  22. Rudolf L. Tonés, «Bela Kun and Hungarian Soviet Republic, N. Yorque, 1967, p. 143, in «A Europa desde 1870», Jonas Jole, edições D. Quixote, p. 368.
  23. Joaquim Palminha, «Jaime Batalha Reis na Rússia dos Sovietes ou Dez Dias que Abalaram um Diplomata Português, edições Afrontamento, Porto, 1984, p. 227.
  24. Idem, p. 228.
  25. Câmara dos Deputados, Sessão n.º 90, de 27/5/1924, p. 5.
  26. Idem, p. 7.


Discursos Clássicos | Salvador Allende - Palácio de La Moneda (1973)




SAIR DO EURO – UMA EXIGÊNCIA NACIONAL



 A saída de Portugal da moeda única, começa a ser um imperativo nacional, uma necessidade vital face ao nosso desenvolvimento económico. Tem sido e assim continuará a ser, um factor de empobrecimento do nosso povo. Uma situação de amordaçamento colectivo e de total paralisia face à carência impressionante de produzir, produzir, produzir.

É bom que se tenha a noção exacta que Portugal jamais aumentará a sua riqueza e a consequente melhoria de vida dos seus cidadãos, enquanto este estado de coisas se mantiver. Há ordens do capital estrangeiro aos seus homens de mão em Portugal, o P”S”, o PSD e o CDS, para impor ao povo estas medidas de acrescida miséria.

Aos que pensam e afirmam, aqui e ali, que é preciso cuidado com esta abordagem, devemos responder que a situação caótica que a sociedade portuguesa vive é, apenas, derivada das exigências coloniais impostas aos governos periclitantes da traição nacional. Portugal está a caminho de uma era de trevas que até já teve um calhordas ministro (Economia) a anunciar o regresso a 50 anos atrás.

Mesmo dentro do meu Partido, o PCP, há camaradas que se questionam sobre a oportunidade desta discussão entre nós e que, adiantam, este problema ainda não está em cima da mesa. É preciso explicar-lhes que não é assim. É preciso explicar-lhes que são vários, já, os dirigentes do Partido que falam desta questão central para a nossa libertação orgulhosa enquanto país soberano. É preciso explicar-lhes que há alternativas ao logro da moeda única e quais são.

Esta armadilha estrangeira de aprisionamento colectivo teve o seu “capitão da finança” na mão traidora de Mário Soares, como todos nos recordamos do espectáculo a que assistimos, basbaques e inconscientes (o povo enganado) naquela sumptuosidade sabuja de entregar as nossas riquezas nas mãos do estrangeiro invasor, levada cabo na magnificência dos Jerónimos. Ironia levada às raias da demência colaboracionista pela escolha do local mais emblemático da nossa grandeza como país liderante de um processo político grandioso, em contrapartida com a rendição destes governantes que para satisfazer as suas fortunas pessoais não hesitaram em se desonrar para a posteridade.

Não devemos permitir que nos chutem para fora do euro. Devemos combater para que, feito o mal, escancarada a miséria, não nos enxotem como se tivéssemos peçonha. NÃO! A nossa saída deve ser compensada com o que nos foi impedido de ter realizado. Temos de exigir, ao sair, contrapartidas do que nos foi roubado desde a adesão; nas pescas, na agricultura, na indústria pesada e ligeira, no Património desbaratado para encher os cofres da javardice monetarista internacional, no desmantelamento brutal e sistemático de sectores fundamentais da nossa vivência colectiva, como seja o Serviço Nacional de Saúde (SNS), menina dos olhos, saída da Revolução e dos ideais de Abril, continuadamente apunhalada por toda a seita de facínoras que o têm dirigido.

SIM! Devemos abandonar a moeda única. SIM! Devemos exigir indemnizações pelo roubo monstruoso arquitectado contra o nosso país. SIM! Devemos responsabilizar os políticos nacionais que nos colocaram nesta situação humilhante, nesta degradação quase paranóica de subdesenvolvimento para usufruírem de regalias egoístas inimagináveis das suas vidas pessoais.



terça-feira, 23 de abril de 2013

Anti-Stalinismo: Uma Arma do Anti-Comunismo (II)


Vencer o preconceito anti-stalinista, uma tarefa de todos os revolucionários

Uma tarefa não fácil, mas imprescindível. Contextualizando a sua obra e tarefas num processo inteiramente pioneiro, onde permanentemente espreitavam, (tal como hoje espreitam) os inimigos do Socialismo. Todos os que perderam com a construção da nova sociedade. A mostruosidade da campanha contra Staline, ou seja contra o Comunismo, atingíu proporções brutais, gigantescas. Uma proporção que permitia ao capitalismo reinante no apogeu da sua fase superior, fase do imperialismo e das guerras imperialistas, tentar esconder os êxitos do Socialismo enquanto sistema sócio-económico superior.

Lénine, falecido em 21 de Janeiro de 1924, não pôde presenciar e militar nessa construção e projecto colectivos que venceram atrasos milenares na velha Rússia czarista. Não pôde, porque o términús da da sua vida decidiu impôr-se precocemente. No entanto Lenine, o grande obreiro do novo Estado Socialista, deixou-se partir convicto de que a vitória do Socialismo estava assegurada, e que os inimigos do Socialismo seriam aplacados com o desenrrolar da Revolução. A luta de classes prosseguia e aprofundava-se, com a classe operária, a generalidade dos trabalhadores, os camponeses pobres, com o Partido de Lénine, com os comunistas fiéis cumpridores do legado leninista.

Por proposta de Lenine, coube a Staline a elevada responsabilidade de lhe suceder à frente do Partido e do novo Estado. Staline, comprovado leninista e dirigente da maior e inteira confiança de Lenine, tomou conta do leme do enorme navio proletário num mar turbulento e cheio de corsários ao serviço do capitalismo. Staline assumiu de forma ímpar a tarefa e as responsabilidades confiadas por Staline e pela direcção do Partido Bolchjevique. No dia 26 de Janeiro de 1924 nas cerimónias fúnebres do fundador do Estado Soviético, Stáline diz do grande Lenine:

Ao deixar-nos, o camarada Lenine legou-nos o dever de manter bem alto e conservar em toda a sua pureza o grande título de membro do Partido. Nós juramos-te, camarada Lenine, que cumpriremos com honra este teu mandato! Durante vinte e cinco anos, o camarada Lenine educou o nosso Partido e preparou-o para ser o mais sólido e mais bem temperado Partido operário do mundo. Os golpes do czarismo e de seus sicários, a fúria da burguesia e dos latifundiários, os assaltos armados de Koltchak e Deníkin e a intervenção armada da Inglaterra e da França, as mentiras e as calúnias de inúmeros órgãos da imprensa burguesa com as suas “cem bocas” — todos esses escorpiões lançaram-se incessantemente contra o nosso Partido, durante um quarto de século. Mas o nosso Partido manteve-se firme como uma rocha, rechaçando os golpes incontáveis dos seus inimigos e conduzindo a classe operária para a frente, para a vitória. Através de duros combates, o nosso Partido forjou a unidade e a solidez das suas fileiras. E graças a essa unidade e a essa solidez conseguiu vencer os inimigos da classe operária.

Ao deixar-nos, o camarada Lenine legou-nos o dever de velarmos pela unidade do nosso Partido como pelas meninas de nossos olhos. Nós te juramos, camarada Lenine cumpriremos com honra também este teu mandato!”..

...“A grandeza de Lenine consiste, sobretudo, em ter mostrado praticamente às massas oprimidas do mundo, com a criação da República dos Sovietes, que não está perdida a esperança de salvação, que a dominação dos latifundiários e dos capitalistas não é eterna, que o reino do trabalho pode ser criado pelos esforços dos próprios trabalhadores, e que o reino do trabalho deve ser criado na terra e não no céu. Com isto, acendeu no coração dos operários e dos camponeses do mundo inteiro a esperança da libertação. É isto que explica que o nome de Lenine se tenha convertido no nome mais querido das massas trabalhadoras e exploradas.

Ao deixar-nos, o camarada Lenine legou-nos o dever de conservar e fortalecer a ditadura do proletariado. Nós te juramos, camarada Lenine, que não pouparemos esforços para cumprir com honra também este teu mandato!”...

...”Agora, a aliança entre os operários e os camponeses deve tomar a forma de uma cooperação económica entre a cidade e o campo, entre os operários e os camponeses, porque está dirigida contra o comerciante e o kulak, porque visa ao abastecimento mútuo dos camponeses e operários de tudo quanto necessitam. Sabeis que ninguém trabalhou com tanto afinco para isso como o camarada Lenine.

Ao deixar-nos, o camarada Lenine legou-nos o dever de assegurarmos com todas as nossas forças a aliança entre os operários e os camponeses. Nós te juramos, camarada Lenine, que cumpriremos igualmente com honra este teu mandato!”...

...”Não é somente a ditadura do proletariado que liberta esses povos das cadeias e da opressão, eles, por sua vez, protegem a nossa Republica dos Sovietes contra as maquinações e os assaltos dos inimigos da classe operária, com sua dedicação incondicional e a sua fidelidade abnegada a ela. Por este motivo é que o camarada Lenine nos falava insistentemente da necessidade de uma aliança voluntária e livre entre os povos do nosso país, e da necessidade de sua colaboração fraternal no quadro da União das Repúblicas.

Ao deixar-nos, o camarada Lenine legou-nos o dever de consolidar e alargar a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Nós te juramos, camarada Lenine, que cumpriremos com honra também este teu mandato!”...

...”Lenine não considerou nunca a República dos Sovietes como uma finalidade em si mesma. Considerou-a sempre como um elo indispensável para reforçar-se o movimento revolucionário nos países do Ocidente e do Oriente, como um elo indispensável para facilitar a vitória dos trabalhadores de todo o mundo sobre o capital. Lenine sabia que somente esta concepção era acertada, não só do ponto-de-vista internacional, como também do ponto-de-vista da manutenção da própria República dos Sovietes. Lenine sabia que esta era a única maneira de levantar o ânimo dos trabalhadores do mundo inteiro para as batalhas decisivas por sua libertação. Foi por isso que Lenine, o líder mais genial de entre os líderes geniais do proletariado, lançou, logo no dia seguinte à instauração da ditadura do proletariado, as bases da Internacional dos operários. Foi por isso que ele nunca se cansou de alargar e fortalecer a união dos trabalhadores de todo o mundo, a Internacional Comunista”!...

...”Vistes, nos últimos dias, a peregrinação de dezenas e centenas de milhares de trabalhadores que vieram saudar os restos mortais de Lenine. Mais algum tempo e vereis passarem em peregrinação, diante de seu túmulo, os representantes de milhões de trabalhadores. Podeis estar seguros de que, depois desses representantes de milhões de trabalhadores, não tardarão a vir, de todos os recantos do mundo, os representantes de dezenas e centenas de milhões de homens, para testemunhar que Lenine foi o líder não apenas do proletariado russo, não apenas dos operários europeus, não apenas dos trabalhadores das colónias do Oriente, mas de toda a humanidade trabalhadora do mundo.

Ao deixar-nos o camarada Lenine legou-nos o dever de permanecermos fiéis aos princípios da Internacional Comunista. Nós te juramos, camarada Lenine, que não recusaremos esforços na nossa vida para fortalecer e alargar a união dos trabalhadores do mundo inteiro, a Internacional Comunista!...”


Staline, foi um genial e fiel discípulo de Lenine. Não um Deus, mas um ser humano generoso, desprendido das riquezas materiais e de interesses egoístas, um ser humano que seguramente também errou, cometeu imprudências, exorbitou, mas sobretudo, foi um revolucionário apaixonado e provado, e profundas e inabaláveis convicções comunistas. Um comunista de capacidades extraordinárias e um profundo conhecedor do marxismo. Um fiel seguidor de Lenine, e quadro em que Lenine confiava, quer na luta contra o czarismo, a exploração e a opressão, quer nas mais importantes responsabilidades e tarefas no período que medeia entre a Revolução burguesa de Fevereiro, e a Revolução Socialista de Outubro. Confiança que lhe atribui as mais duras e exigentes responsabilidades na consolidação das conquistas revolucionárias, e na derrota dos inimigos da Russia Sovietica na Guerra Civil de 1918-1921. De convicções forjadas na dura luta contra o arcaico, criminoso e fascínora regime do czarismo e aqulio que cummente era designado pela “Prisão dos Povos” ( a Rússia imperial).

E é por isso que constitui um dever dos comunistas, dos homens e mulheres que querem construír a sociedade nova, o Socialismo, a reposição da verdade sobre Staline aos olhos dos trabalhadores e dos povos de forma objectiva, verdadeira, isenta de mentiras e julgamentos sumários. Repor a verdade sobre o que foi o Socialismo que marcou de forma precisa todo o Século XX, e que marca, -mesmo que o tentem apagar,- os dias de hoje.

Muitos preconceitos em relação a Staline têm ruído e caído por terra. Muitos Partidos Comunistas que foram tocados pelo vírús do preconceito anti-stalinista, têm feito a sua auto-crítica e reassumido Staline como um grande teórico e dirigente comunista. Não só junto dos trabalhadores e povos da antiga União Soviética e nos ex-países socialistas do Leste da Europa, mas por todo o mundo. Uns de forma ainda tímida, envergonhada, utros de forma clara, objectiva, verdadeira, vencendo toneladas de mentiras, maquinações, construções, que se reacenderam no rescaldo dos terríveis, desnorteantes, e para muitos, claudicantes anos 90 do século que passou. A turba anti-comunista com todo o seu argumentário pôs de joelhos Partidos, quadros e dirigentes comunistas. O “canto do cisne” da burguesia falou mais alto. Mas a verdade é de que a campanha de difamação e a cruzada anti-comunista que tem no anti-stalinismo o seu epicentro, procurando assestar duros golpes no período em que foram construídos os alicerces do edifício socialista, terá a seu tempo os dias contados.O anticomunismo disfarçado de “anti-stalinismo” que pretendendo reescrever a história, mostra o medo dos inimigos de classe dos trabalhadores, pelo Socialismo e o Comunismo.

É sob a direcção de Staline, que se constrói uma poderosa URSS baseada em novas relações sociais, com a abolição das relações capitalistas de produção, a formação de uma propriedade socialista forte e dinâmica, e como motor que acelera o desenvolvimentos de outros vectores da economia, a colectivização da agricultura com a criação de um sector cooperativo forte, a planificação central e os planos quinquenais, as conquistas técnico e científicas, a inscrição na forma e na letra dos direitos laborais e socias, a instituição do poder operário e camponês através dos Sovietes. A URSS somou um enorme conjunto de êxitos num curto espaço de tempo, incluindo nessse curtíssimo espaço, a devastação dos seus meios e recursos por via do cerco imperialista e a Guerra Civil, e a criminosa e brutal devastação que foi a II Guerra Mundial (Grande Guerra Pátria). O Socialismo saíu vencedor, garantindo o direito ao trabalho, à saúde e educação gratuitos, promoveu o desporto, e a cultura, aboliu o analfabetismo, a exploração do homem pelo homem, e mostrou de forma evidente, a superioridade do Socialismo face ao capitalismo.


À medida que se somavam as vitórias do Socialismo e as derrotas da burguesia, do capitalismo, as armas do anti-comunismo adquiriram novas e mais eficazes munições a partir do tristemente famoso, febril e mercantil “Relatório Secreto” de Kruthev no XX Congresso do PCUS. Um congresso realizado três anos depois da morte de Staline, três anos onde já se manifestavam “aberturas” para uma nova base económica, com elementos e sintomas, que reapareciam depois de terem sido praticamente destruídos com a socialização e colectivização da propriedade. Kruthcev não levou em conta por opção própria, o alerta que Stalin tinha feito já em 1952 do erro que seria deixar de dar primazia à produção de meios de produção, máquinas-ferramentas e indústria pesada de vanguarda, colocando em causa uma necessária e premente expansão da economia. O resultado das opções de Krutchev manifestou-se de forma negativa a partir de 1956.

No plano ideológico as teses revisionistas foram ainda mais longe, anunciando que o estádio de desenvolvimento da sociedade soviética era tal forma avançado,e tão perto da sociedade comunista, por via da nova arrumação social (o desaparecimento das classes sociais), de que o PCUS deixaria de ter uma natureza de classe explícita e precisa como Partido e vanguarda da classe operária, passando a ser o Partido, a vanguarda de todo o povo”... Um efervecente caldo que desenvolveu e animou forças que já estavam derrotadas e neutralizadas por via de um processo revolucionário de grande fôlego. Desapareceu a vigilância revolucionária e de classe.

A actividade económica com características privadas e sobretudo sub-mundanasprivada, emergiu de forma embrionária no tempo de Khruchev, desenvolveu-se de forma florescente com o meio-tintismode Bréjnev, funcionando como um acelerador de partículas que facilitou o golpe e a traição de Gorbatchov, Iakovlev, Ieltsin e outros serôdios anti-comunistas que só conseguiram chegar ao topo da hierarquia do Partido e Estado Soviéticos, porque tinha havido um verdadeiro golpe contra-revolucionário no XX Congresso do PCUS depois da morte de Staline.

Não tem portanto qualquer base científica a conclusão tirada convenientemente pelos fazedores da campanha anti-comunista, de que o sistema socialista estava condenado ao desastre desde o início. Foi necessário às forças revanchistas, introduzir o “anti-stalinismo” como um elemento que facilitasse a introdução dos elementos desagregadores, ao vírús, que levasse à derrota do Socialismo. Na URSS, e por arrasto os países socialistas do Leste da Europa. A traição de Gorbatchev tomou foros internacionais, inclusivé rearrumando fronteiras, com a negociação entre a URSS e as potências imperialistas para a anexação da RDA socialista. A Alemanha Federal conseguiu conquistar sem disparar um tiro, o que não conseguiu nas I e II Guerras Mundiais.

Um processo de golpe final muito doloroso para os povos da URSS e Leste da Europa, para os Partidos Comunistas e forças do progresso de todo o mundo. Um processo onde o descontentamento popular apenas surge e com efeito hecatombico na fase final das “reformas gorbathevianas, como um efeito da política de Gorbathev e do “Novo Pensamento Político” apoiado pelos “conselheiros das “democracias ocidentais”. Todas as medidas de demolição do Socialismo foram acomnpanhadas por máquinas de propaganda e aparelho ideológico do próprio Partido e da sociedade. Tanto Krutchev, como Gorbatchov iniciaram os seus consulados a falar em “mais Lenine” e pureza do leninismo”, ao mesmo tempo que se fastavam do leninismo. As críticas ao “culto da personalidade” de Staline, não passavam de filtros para facilitar a aceitação das medidas mercantilistas pelas grandes massas do povo soviético que sempre confiaram em Lenine. O Socialismo na URSS e nos países socialistas no Leste da Europa não representava a sociedade perfeita, mas era seguramente infinitamente mais democrática e realizadora que qualquer sociedade capitalista desenvolvida. ...“O socialismo soviético tinha muitos problemas (…) Contudo, corporizava a essência do socialismo tal como definido por Marx – uma sociedade que derrubara a propriedade burguesa, o “mercado livre”, o Estado capitalista, substituindo- os pela propriedade colectiva, a planificação centralizada e um Estado operário.”... (O Socialismo Traído de Roger Keeran e Thomas Kenny)


Gorbatchev (e a direcção mafiosa e malfeitora que o rodeava) sabia (e para isso foi devidamente aconselhado pelos “conselheiros das democracias ocidentais”) que haviam medidas-chave para o assalto final ao Socialismo. A pedra de toque foi a eliminação apressada do Artigo 6º da Constituição da URSS, para além de outras de profundo alcance e efeito demolidor. A seguir ao ano de 1987, no espaço de um ano, Gorbatchev com a sua Perestróika substituiu mais de 50% dos membros efectivos e suplentes do Politburo do Comité Central e do profundas alteraçoes sociológicas no Comité Central onde os operários foram reduzidos a 5% dos seus membros. Substituiu 14 dos 23 dirigentes de departamentos do Comité Central, cinco dos 14 presidentes de repúblicas e 50 dos 157 primeiros secretários de krais (regiões) e oblasts (distritos). Gorbatchev substituiu 40% dos embaixadores, alterou ministérios e afastou 50 mil gestores. Tal e qual como fez Krutchev, e acompanhar todas estas medidas por uma campanha mediática sempre em nome do “rejuvenescimento”, “renovação”, “alívio dos camaradas que já deram muito”... Usou e abusou da confiança do Partido e povo soviéticos. Usou e abusou da solidariedade da humanidade progressista com o seu “Novo Pensamento Político”, que mudou o conteúdo da doutrina da “coexistência pacífica”, para o que passou a chamar de “Valores Humanos Universais”, uma expressão e um conteúdo com que justificou a aliança com o imperialismo.

Ao defendermos Stáline, não defendemos o homem e os seus erros. Eles devem ser analisados à luz da época histórica concreta em que se verificaram, (e corrigidos), distinguindo sempre a crítica justa do criticismo, e não da forma leviana e traiçoeira como foi feito por Krutchev e benificiários da campanha “anti-stalinista”. A histeria “anti-stalinista” levou a que muitos deixassem de ver Stáline como um camarada, um comunista revolucionário e passassam a vê-lo como um inimigo.

Kruchov, um mestre na arte da bajulação, injuriou Stálin, qualificando-o de “assassino”, “criminoso”, “bandido”, “déspota do tipo de Ivan o Terrível”, o “maior ditador da história da Rússia”, “tolo”, “idiota”, chamou-lhe de tudo, menos de pai... A baixesa foi dilacerante. Krutchev aproveitou igualmente para se vingar de Staline, desde o tempo em que o seu filho foi preso por morte de um soldado, por via de uma brincadeira com a arma fazendo a “roleta russa”. Krutchev vais interceder pelo filho junto de Staline. Dirigindo-se a Krutchev depois de de este lhe colocar o problema do filho: ...
quem é que se está dirigir ao Secretário Geral do Partido, é o pai do soldado que matou por via de uma brincadeira irresponsável, ou o camarada Krutchev, membro da direcção do Partido?”... De facto, um pequeno exemplo revelador do carácter desprovido de espinha dorsal de Krutchev, ainda por cima num plano onde a dignidade de Staline foi duramente provada quando o seu filho foi capturado e aprisionado pelas forças alemãs, que tentaram negociar a sua troca por altas patentes nazis que foram feitas prisioneiros pelo Exército Vermelho. Staline não vendeu os seus princípios e a dignidade do Estado soviético.

Repetidamente o revisionismo krutcheviano pretendia, e de alguma forma conseguiu, “jogar em vários tabuleiros”. Por um lado dando a idéia de que o povo soviético viveu ao longo de três décadas não no Socialismo, mas num regime de tirania e debaixo do mando implacável do “maior ditador da Rússia”..., ou de um Stáline “tolo”, que por vontade colectiva da direcção do PCUS foi o principal dirigente por mais de 30 anos. Ou o Staline “idiota” que foi o mais capaz dirigente militar e político, tal como foi reconhecido pelas altas patentes militares soviéticas, incluindo o Marechal Jukov, e até mesmo pelos inimigos confessos do Socialismo e da União Soviética, como era Winston Churchil.

O insulto que Kruchev lançou contra Stáline, a divisão que provocou no Movimento Comunista Internacional, constuíu uma afronta ao povo soviético, ao Partido Comunista da União Soviética e ao Exército Soviéticos. Um insulto ao sistema socialista e à ditadura do proletariado. Um insulto à causa pela qual lutaram e tombaram os comunistas. Um insulto ao trabalho colectivo do seu próprio Partido no qual foi um dos principais dirigentes, e ao mesmo tempo um dos mais criativos bajuladores.

Para os fins pretendidos Krutchev, o seu “Relatório Secreto” e as novas concepções e orientações saídas do XX Congresso, foram os meios e as armas utilizados. Injúrias e falsificações em tudo iguais às dos inimigos do Socialismo, iguais aos “argumentos” que fazem parte do arsenal imperialista.
Vale a pena citar Lénine:...a injúria em política encobre frequentemente a completa carência de idéias, a impotência, a frouxidão, frouxidão repugnante dos injuriadores”... (in artigo “O significado político da injúria”). A injúria, a falsificação, são irmãs siamesas da mentira. Foi necessário injuriar e mentir muito, para se chegar ao estado deplorável a que muitos comunistas e Partidos Comunistas chegaram, ao “paparemde uma penada os preconceitos da campanha “anti-stalinista”, ou seja, à campanha anti-comunista montada pela buirguesia, montada pelos que perderam com o Socialismo, e os seus agentes das mais diversas roupagens e origens. O facto, é de que objectivamente todos cooperavam, e cooperam na mesma campanha, repetindo as mesmas ladaínhas, as mesmas mentiras.

Uma falsificação da história,- no que se refere a um processo pioneiro de construção do Socialismo no processo histórico,- que foi tão longe, que vai ser, (e de alguma forma já está a ter) necessário muito tempo para que a falsificação e a mentira sejam eliminadas. Esta reposição da verdade histórica é uma tarefa, difícil é certo, de todos os comunistas e dos Partidos dignos de se chamarem de Comunistas, de lutarem contra o preconceito e as mentiras instiladas pela campanha anti-comunista. Não deixarem que a tese de Goebells leve a melhor, ou seja, que “uma mentira repetida mil vezes, tende a tornar-se verdade”...

Nunca é demais lembrar as condições, e o caráter libertador da Grande Revolução Socialista de Outubro, que libertando energias próprias dominantes e determinantes, gerou ao mesmo tempo “anti-corposdas classes que antes dominantes, perderam o Poder. E quando se fala em Poder, fala-se do sistema e regime sociais, e dos partidos que se alimentavam e viviam desse sistema, o capitalismo, no elo mais fraco do sistema capitalista mundial, que era o império czarista russo.

Noutras palavras, a revolução proletária alcançou a vitória, fora das previsões de Marx e Engels, num país rural e de “mentalidade asiáticacomo dizia Lenine.

O derrube do Governo provisório burguês de Kerensky em Outubro de 1917 no período da “dualidade de poderes”, foi o início de uma revolução quase sem derramamento de sangue no assalto ao Palácio de Inverno, onde estava instalado o Governo provisório de Kerensky . Para além de algumas mortes e feridos sobretudo nas forças da guarda do Palácio, rápidamente o poder foi entregue ao novo Poder dos Sovietes. Na capital do império, São Petersburgo, o Poder dos Sovietes de Operários, Camponeses, Soldados e Marinheiros passou a ser o novo poder. Pela primeira vez na história da humanidade, os protagonistas e sujeitos históricos da Revolução, foram também quem passou a exercer o Poder político. Em Moscovo, para além de pequenas escaramuças, também o novo Poder toma conta da segunda capital do império.

A situação que se vivia a seguir à Revolução Democrática-Burguesa de Fevereiro de 1917, gerou o aparecimento de trinta e nove partidos que representavam os interesses das classes burguesas e sete monárquicos e de latifundiários que desapareceram gradualmente da cena política em resultado de um processo revolucionário qualitativamente novo. Ainda no primeiro Governo dos Sovietes encabeçado por Lenine, participaram representantes de partidos pequeno-burgueses, mencheviques e “Revolucionários de Esquerda”. Arrancava assim, o processo pioneiro que marcou de forma indelével o início do século XX, e inaugurou o período da passagem do capitalismo ao Socialismo. O desejo dos “comunardscumpria-se. Iniciava-se o desejado por mil lutas, o assalto aos céus”!

Os inimigos do novo Poder, internos e externos, tudo fizeram para derrotar o novo Poder operário-camponês. O cerco da Entente (potências capitalistas que cercaram por terra e mar a jovem Rússia Soviética) de apoio aos exércitos brancos czaristas de Koltchak e Denikín, uma Guerra Civil sangrenta e brutalmente destrutiva, foram derrotados pela classe operária em armas que defendia o seu poder de classe.

Mas as acções de sabotagem continuaram naquilo que se identificava como “Contra-Revolução Tranquila, atingindo quer as estruturas do novo aparelho de Estado, quer as estruturas económicas e produtivas. Uma contra-revolução que também chegou ao interior do Partido Bolchevique, ao novo aparelho de Estado, ao Exército Vermelho, procurando por todos os meios fazer fracassar a Revolução Socialista, e que para isso, para esse objectivo, atacavam com enorme ferocidade a cabeça do Partido Bolchevique, Lenine e Staline.

A luta pelo socialismo também se fazia sentir no interior do Partido na luta contra os trotskystas, zinovyevistas, bukarynistas e outros oportunistas.
Fracções oportunistas com perigosos reflexos em alguns Comissariados do Povo (ministérios), que promoviam aa sabotagem e a cospiração. Uma complexa e contraditória fase da construção do Socialismo que assinalava já grandes êxitos na industrialização, no processo de colectivização e do cooperativismo da economia rural gerando uma nova estrutura fundiária, e a revolução cultural, a educação, ensino e cultura de socialistas.

A jovem URSS sofreu um brutal cerco onde naquele tempo onde toda a atividade da política externas das chamadas “democracias” ocidentais obedeciam a uma estratégia comum que era empurrar a Alemanha hitleriana para uma guerra e invasão da União Soviética. O Pacto de Não-Agressão assinado pela União Soviética com com a Alemanha hitleriana, permitiu à URSS ganhar tempo. O tempo para que em ano e meio, a URSS deslocasse para zonas de segurança as suas indústrias mais ocidentais para os Urais, e fortalecesse a sua indústria militar de defesa, e prevenir um ataque da Alemanha como veio a acontecer.

O chamado “Pacto Molotov-Ribbendrop(O pacto de não agressão com a Alemanha), permitiu ao mesmo tempo (graças a este pacto), que o imperialismo não tivesse capacidade para montar uma força única contra a União Soviética. A União Soviética prestou um serviço à humanidade derrotando as foças da coligação hitlaeriana, pagando por isso um altíssimo preço. A táctica desenhada pelas “democracias ocidentais” que era de atacar uma Alemanha enfraquecida depois desta ter vencido a URSS, não resultou. Os EUA e a Inglaterra perderam nos seus propósitos. A abertura tardia da “Segunda Frente” dá-se não por acaso, muito tardiamente já quando Exército Vermelho cercava Berlim.

Uma vitória que permitiu ao Socialismo recuperar as suas forças, restaurar o país e a sua economia em saltos gigantescos de realização e conquistas, somando avanços do ponto de vista qualitativo na produção, nos progressos científico-técnicos, no bem-estar dos trabalhadores e povo soviéticos.

Nos anos 50 do século passado, a URSS ocupou o primeiro lugar na Europa e o segundo no Mundo no que diz respeito à produção industrial, e o terceiro lugar no mundo que se referia à produtividade do trabalho na indústria. A autoridade de Stálin era por demais evidente para as amplas massas de soviéticos e para os trabalhadores e forças progressistas de todo o mundo.
Objectivamente a campanha contra o “culto à personalidade” de Staline, denegriu a autoridade do socialismo, pôs em causa na consciência de muitos o ideal comunista, criou ainda mais sérias dificuldades ao Movimento Comunista Internacional. Esta campanha significava a degenerescencia social-democratizante instalada no PCUS. Foi o início do revanchismo com a mudança massiva de bons e experimentados quadros do Partido na estrutura partidária, nos orgãos do Poder, e nas Forças Armadas, dentro das novas linhas da histeria “anti-stalinista” numa perseguição carregada de atropelos à legalidade e democracia socialistas.

Aquilo de que acusavam Staline injustamente, passou a ser a prática do grupelho Krutchevista instalado após a morte de Staline na Direcção do Partido e do Estado. O assassinato sem julgamento de Laurentus Beria, é um bom exemplo disso. Outras medidas igualmente violentas foram tomadas. Kruschov substituiu todos os Secretários dos Comités Regionais e Urbanos, e dos Comités Centrais do Partido nas Repúblicas, por outros quadros afectos a si e da sua confiança, que com facilidade revelavam ter menor capacidade que os anteriores, com consequências desastrosas para o Partido, para a economia, e a sociedade.

A implementação das linhas de “destalinizaçãoiniciadas por Krutchev e continuadas por Brejnev e Gorbatchev, levou a um nível baixíssimo o trabalho partidário sobretudo junto dos trabalhadores . Uma enorme massa de militantes do Partido foi transformada apenas nos “pés” que suportavam uma pirâmide cada vez mais invertida, introduzindo o desalento, desencanto e a desconfiança em generosos e dedicados militantes e construtores do Socialismo, ao mesmo tempo que cresciam os sintomas de favorecimento e aproveitamento de uma cúpula cada vez mais afastada da base do Partido e das massas. Sintomas que desautorizaram o PCUS, que transformaram o Partido e o ideal comunista em alvos de críticas por via dos comportamento e oportunismo desses dirigentes, críticas a comportamentos não permitidos no tempo de Staline. Tais comportamentos individuais e colectivos, contribuiram para o reforço do “submundo mafiosoramificado e poderoso. A Perestroika ao mesmo tempo que assassinava o Socialismo, mostrava a face dos rostos mafiosos que iriam tomar conta do poder político (porque parte do económico já detinham), e os seus agentes. Agentes, alguns deles ex-membros e até dirigentes do PCUS e da Komsomol.

Na reescrição da história feita pelos vencedores a seguir à derrota do Socialismo e da própria URSS em 1991, tudo fizeram, e escreveram, para que fosse possível identificar o socialismo com o nazismo, Staline a Hitler, metendo tudo no mesmo saco, para desorientar e desnortear os comunistas , os proguessistas e revolucionários, e os trabalhadores e os povos de uma forma geral. Para esse peditório, a campanha “anti-stalinista” contou com o oportunismo da social-democracia, e outras expressões do oportunismo como foi o “eurocomunismo”. Como já se disse antes, muitos comunistas, gente genuínamente revolucionária e progressista sucumbiram a esta monstruosa campanha de colossais mentiras, produzida por igualmente colossais meios.

A história da União Soviética demonstrou que o oportunismo, cresceu e disseminou-se com o propósito de restaurar o capitalismo. A histeria “anti-stalinista”, é a outra face da moeda da campanha “anti-leninista”, ou seja, do anti-comunismo. No movimento Comunista Internacional, o “anti-stalinismo” foi de facto, como diz Nina Andreyeva, “o cavalo de tróia que levou à ruína e à degeneração dos Partidos (Comunistas) da ex-comunidade dos países socialistas (no Leste da Europa) que imitavam cegamente a linha do PCUS”!, nos bons e maus momentos.

Termino com uma expressão de Staline:...“o vento da História varrerá inevitavelmente das nossas tumbas, todo o palavreado e todas as calúnias, e deixará com clareza todas as verdades”...

Combater o “anti-stalinismo”, é combater a mais eficaz arma do anti-comunismo. É abrir as portas aos ventos que de Leste, soprarão a pooeira das falsidades, injúrias e mentiras, que ocultam a verdade!


Janeiro de 2013
Luís Piçarra


Alexander Kérensky (1881 1970), Social-democrata, foi um dos participantes e activistas da Revolução Democratico-burguesa de Fevereiro de 1917, foi chefe do Governo Provisório imediatamente antes da Revolução de Outubro.

Nina Andreyeva (1938), Professora de Engenharia Física, foi expulsa do PCUS por criticar a linha política reformista e revisionista da direcção de Gorbatchev que estava a ser seguida. È dirigente do Partido dos Comunistas (blochevique) de Toda a União, que faz parte de uma frente comum com o Partido Comunista da Federação Russa

Anti-Stalinismo: Uma Arma do Anti-Comunismo (I)

"Devo dizer em sã consciência camaradas, que eu não mereço metade desses elogios que têm sido ditos aqui sobre mim. Ao que parece, por esses elogios, sou o Herói da Revolução de Outubro, o líder do Partido Comunista da União Soviética, o guerreiro lendário, entre outras coisas... Isto é absurdo camaradas, e um exageiro desnecessário. É o tipo de coisas que normalmente é dita na tumba de revolucionários falecidos. Mas eu não tenho intenção de morrer ainda... Eu realmente era, e ainda sou, um dos pupilos dos trabalhadores das oficinas da ferrovia de Tiflis." (J. V. Stalin: Obras, Volume 8; Moscovo; 1954)

Mas a história tem sempre o seu carácter objectivo, os os factos objectivos são os que são. Durante a vida I Internacional dos Trabalhadores de que K. Marx para além de fundador era o seu principal dirigente, Bakunin, para depois renegar e renunciar a Marx, fez o percurso do elogio oportunista para ganhar espaço na Direcção da I Internacional: ... “Sou seu discípulo, e sinto-me orgulhoso disso.” (dirigindo-se a K. Marx)... Gorados os planos de usurpação da direção da I Internacional, injuriou Marx, dizendo que Marx, “como alemão e judeu, é dos pés à cabeça um autoritário”...

Também o renegado Kautsky, dirigente da II Internacional bernsteniana, também utilizou expressões vexatórias para injuriar, e negar o papel e as extraordinárias capacidades científicas e de marxista convicto como o que foi Lenine. Caluniando contra Lenin, apelidou-o de ser “o deus dos monoteístas”, e dizendo que Lenine havia “reduzido o marxismo não só à condição de uma religião de Estado, mas também à de uma superstição medieval ou oriental”...

Os mesmos tiques e propósitos saíram da boca de Trotsky ao injuriar Stáline, dizendo que Stáline era um “déspota”... e de que “Stálin, o burocrata, estabeleceu o infame culto ao chefe, atribuindo-se-lhe santidade”...

O anti-stalinismo nasceu exactamente da mesma forma e pelas mesmas razões, como nasceu o anti-leninismo. O que dizia a burguesia de Lénine quando da vitória da Revolução de Outubro, e do “desenho” da futura sociedade e do poder exercido pelos trabalhadores? O ódio da burguesia, dos seus sistemas e partidos, aos protagonistas da vitória da Revolução que iniciou o período da passagem do capitalismo ao Socialismo, suscitou a organização do aparelho ideológico para a diabolização do Socialismo e do Comunismo e daqueles que o personificavam. Uma máquina que não poupou esforços, meios e somas avultadíssimas de dólares, marcos, libras e francos para a tarefa de transformar a mentira em verdade. Uma máquina que conseguiu êxitos, e que se mantém com uma permanente actividade. Enquanto existirem exploradores, a máquina dos seus interesses também existe. A sua génese é o anti-comunismo! O anti-stalinismo, é uma arma do anti-comunismo. Quando se elege Staline como alvo, elege-se o Socialismo, as suas conquistas e realizações, como o alvo. Staline, ainda em vida de Lenine, foi eleito em 1922 Secretário Geral do Partido Comunista (bolchevique) da Russia. Cargo que ocupou até à sua morte em 1953, apear de em pelo menos dois momentos ter pedido ao Comité Central que lhe fossem retiradas essas responsabilidades.

Falamos de um Staline,- que sucedeu a Lenine na direcção do primeiro Estado Operário-Camponês, o novo Estado onde o objectivo dos “comunards”, de assalto aos céus, foi concretizado como obra da classe operária, dos camponeses, dos intelectuais progressistas, dos soldados e marinheiros, da generosidade revolucionária da juventude, - falamos daquele Stáline a quem coube a espinhosa tarefa de construír e defender a epopéia pioneira que foi a construção do socialismo no País dos Sovietes. Desde a reconstrução económica em resultado de criminoso cerco por parte das potências capitalistas, vencendo a guerra contra o atraso milenar e as suas sequelas sociais, criando uma indústria poderosa e forte, lutando pela colectivização da agricultura para dar de comer a todo opovo e combater a sabotagem nos campos, até à gloriosa e de sentido universal, vitória contra o nazi-fascismo na II Guerra Mundial, guerra que, dentro das fronteiras da União Soviética adquiriu justamente o carácter de Grande Guerra Pátria.

Com, e sob a direcção de Staline, -quer se queira ou não, seja o preconceito mais forte ou não,- objectivamente foi com Staline que se construíram as basaes tecnico-materiais para a construção da sociedade socialista na URSS, e ao mesmo tempo imprimindo uma monumental derrota na prática, das pedras angulares das teorias trotskystas... Afinal, a Revolução e o Socialismo triunfaram num só país, e foi o “farol” que galvanizou os trabalhadores e os povos de todo o mundo. As suas conquistas e realizações tiveram um efeito radiante, e de forma particular nos países capitalistas desemvolvidos. Um “farol” que animou a luta vitoriosa dos trabalhadores nos países capitalistas, que arrecadaram inúmeros direitos.

Fica aqui uma citação de Isaac Deutcher sobre essa construção que foi a Revolução no país dos sovietes:... " No decorrer de três décadas, o aspecto da União Soviética transformou-se completamente. O núcleo da ação histórica do stalinismo é este: ele encontrou a Rússia que arava a terra com arados de madeira, e a deixou dona da bomba atómica. Elevou a Rússia ao grau de segunda potência industrial do mundo, e não se tratou apenas de uma questão de puro e simples progresso material e de organização. Não se poderia obter um resultado semelhante sem uma vasta revolução cultural, no decorrer da qual se mandou para a escola um país inteiro para que recebesse uma instrução extensiva "...

Pode ajudar a uma melhor compreensão sobre este tema, o facto de procurarmos as razões, e os principais autores da promoção da imagem de Staline, que só surge e ganha grande ímpeto nas massas em grande parte devido ao seu papel à frente da União Soviética, na e pós Grande Guerra Pátria. Stáline teve a pesada herança de Lénine de assegurar a construção do país novo. O seu papel de dirigente incontestado da Revolução bolchevique chegou aos trabalhadores e povo soviéticos. Não foi necessário nenhuma máquina de propaganda para promover a imagem de alguém que não só era conhecido, mas mais do que isso, respeitado. A autoridade de Staline não teve a necessidade de ser imposta, essa autoridade saíu legitimada pela vontade e autoridade das massas. Não é raro encontrar-se dirigentes comunistas que tentam impôr a sua autoridade a partir dos cargos que ocupam. Aí, não são reconhecidos, nem estimados. Limitam-se a serem aceites, porque os cargos só por si não dão capacidades. Só pelos cargos, não granjeiiam o respeito daqueles que dirigem.

Se é certo que a questão da quase permanente homeagem a Staline depois da Grande Geurra Pátria teve o seu maior, justo e merecido peso, essa exagerada manifestação já pronunciava o papel que alguns vieram a ter. A falta de espinha e a bajulação eram características que ambiciosos e sequiosos de poder iam exibindo. Já em agosto de 1936, Khrushchev, enquanto membro da Direcção, e Primeiro Secretário do Partido emMoscovo, por altura do julgamento público de Kamenev e Zinoviev, por crimes de alta traição, fez a seguinte afirmação: ..."Pigmeus miseráveis! ... Vocês levantaram as mãos contra o maior de todos os homens, o nosso sábio ‘vozhd’ (chefe), o camarada Stalin!” ... “O senhor, camarada Stálin, foi quem levantou a grande bandeira do marxismo-leninismo sobre o mundo e a levou ao seu ponto mais alto”.... “Asseguramos-lhe, camarada Stalin,que a organização bolchevique de Moscovo, fiel partidária do ‘Comitê Central Stalinista’ incrementará a vigilância stalinista ainda mais e extirpará o resto dos trotskistas-zinovievistas, cerrando fileiras do Partido Bolchevique e independentes, ao ‘Comité Central Stalinista’ e ao grande Staline"...

Igualmente, foi Krutchev nesse mesmo ano, quem propôs no VIII Congresso dos Sietes de Toda a União, que a nova Constituição da URSS se passasse a denominar “Constituição Stalinista”, “porque foi escxrita do princípio ao fim, pelo camarada Staline”...No mesmo discurso, Khrushchev criou o termo "stalinismo":... "A nossa Constituição é o ‘marxismo-leninismo-stalinismo’, que conquistou uma sexta parte doglobo". Num Comício com mais de 200 mil pessoas em Moscovo no ano seguinte, altura do julgamento por alta traição de Radeck e Piatakov, conhecidos trotskystas, é Krutchev que avança com novo “elogio”, desta vez mais requintado: ..."Ao levantarem as vossas mãos contra o camarada Staline, levantaram-nas contra aquilo que tem de melhor a humanidade. Pois,Staline é a esperança e a expectativa, é o farol que conduz a humanidade para o progresso. Staline é a nossa bandeira! Staline é nossa vontade! Staline é nossa vitória!"...

O mesmo Krutcev, no XVIII Congresso do PCUS, refere-se a Staline como o “maior génio da humanidade, mestre e “vozdh” (chefe), que nos conduz ao comunismo, nosso mui amado Staline”... Ou ainda este diamante da bajulação: ..."O Partido Comunista abriu o seu XIX Congresso mais do que nunca solidário, unitário, monolítico e poderoso, estreitamente reunido em torno do Comité Central e do seu genial dirigente, o camarada Stáline” ... “As nossas vitórias e as nossas realizações são devidas à justa linha política do Partido Comunista, à direção esclarecida do Comité Central leninista-stalinista, ao nosso chefe e amado educador, camarada Stáline”... “Os sucessos conseguidos pelo nosso país foram alcançados graças ao Partido, que prosseguiu um vasto trabalho de organização de massas para levar à prática as geniais indicações de Josef Stáline." (KILEV, Mikhail. "Kruschev e a Desagregação da União Soviética", p. 11).

Outros dirigentes, alguns como Mikoyan, Jukov, e com propósitos que não vão além de um sincero reconhecimento do papel de Staline, promoveram a figura do líder, não como uma coisa sem dinâmica, parada, como uma estátua, mas de um dinâmico, generoso, humilde revolucionário e dirigente comunista.

É de grande evidência, neste julgamento da história feito à distância, e depois da derrota do Socialismo na URSS e no Leste da Europa, que muitos cidadãos soviéticos admiraram Staline, e expressaram essa admiração nas mais diversas formas. Na arte, no cinema, literatura, em peças musicais, etc. Chegamos hoje, e por uma alargada base informativa, à certeza de que, o "culto da personalidade em torno de Staline foi promovido sobretudo por oportunistas, e contrariando a vontade expressa deStaline. A questão que se coloca, -não na crítica àquilo que foi, e ainda é, uma genuína vontade dos trabalhadores e do povo soviético, e também do Movimento Comunista Internacional,- é perceber-se quais as razões que estiveram na bajulação de alguns. Coisa diversa da admiração e respeito.

Será que entenderam que essa bajulação a Staline seria o caminho mais curto para controlarem o aparelho do PCUS, porque Stáline era de facto um dirigente respeitado e reconhecido pelos trabalhadores e povo soviéticos? Que instalados nos mais altos cargos do Partido e do Estado, estariam em melhores condições de atacarem Staline posteriormente, e na crítica a Staline poderem iniciar um caminho oposto ao do seguido por Staline até aí?

Questões que o próprio Staline na sua perspicacia não soube detectar, apesar das duras críticas que dirigiu a bajulices e bajuladores, embora tivesse confessado que suspeitava que o "culto da personalidade” era promovido por "sabotadores" com oobjetivo de desacreditá-lo”... Assim foi a partir da sua morte, morte em circunstâncias muito estranhas diga-se, em 1953.

Ainda no XIX Congresso do PCUS em 1952, Krutchev & Cia, fazem os seus discursos carregados de loas a Staline, dando quase a idéia de que “era Deus no céu, e Staline na terra”... O chamado “Relatório Secreto” de Krutchev lido à porta fechada e depois de encerrados os trabalhos, no XX Congresso a partir de uma pretensa crítica ao “culto da personalidade de Staline, mais não foi do que o soar das trompetas para o “assalto final” à Direcção e estrutura do Partido e do Estado, e ao questionamento dos fundamentos da Revolução Socialista, dos seus êxitos e das suas conquistas, que tinham o contributo indelével de Staline.

O ataque revisionista foi não um ataque apenas contra a pessoa de Stáline,como o mais capaz sucessor de Lenine, mas a primeira parte de uma ofensiva mais geral contra Socialismo.

O anti-stalinismo surge como uma mortífera arma do anti-comunismo. Mortífera porque com Krutchev, nasce na cabeça do PCUS o veneno mortal que leva à derrota da causa do Socialismo e do Comunismo, no MCI.

Diabolizando Staline, diabolizaram os dirigentes que a todos os níveis da estrutura partidária confiavam em Staline. Diabolização que surtiu os seus efeitos dentro e fora das fronteiras do PCUS e da União Soviética, de efeitos imediatos para aquela altura e momento, e para o futuro. Com a derrota do Socialismo na URSS e no Leste da Europa, sacudida pela campanha ideológica extraordinária nos meios utilizados, cuja base era o anti-stalinismo, ainda hoje marca muitos Partidos Comunistas e forças progressistas do mundo inteiro.

É uma batalha muito difícil, a batalha para vencer os preconceitos instalados, e de fazer perceber aos “preconceituosos”, de que esse preconceito anti-Staline, não é mais do que uma prática e um preconceito anti-comunista, uma arma do anti-comunismo.

As divisões que se operaram a partir do fatídico XX Congresso do PCUS, fracturou e feriu brutalmente o Movimento Comunista Internacional. Não é raro ouvir-se a dirigentes de alguns Partidos Comunistas, atoardas sobre Staline, que também são as atoardas do arsenal de argumentário dos mais confessos anti-comunistasm como Goebells, Conquest, Hurst, Soljenitsyne, Mandel, e toda a sorte de anti-comunistas militantes, com teses do género em relação à URSS e a Stáline: ...“millhões de mortos nas purgas de 37/38”, “fuzilamentos em massa somando millhões de execuções”, “julgamentos sem provas e com confissões forçadas”, “milhoões de prisioneiros políticos nos GULAG”, “deslocações gratuitas e em massa de povos e etnias”, “perseguição”, “arbítrio”, “clima de terror”, “fome”, etc., e a melhor das pérolas: “o assassínio de toda a velha- guarda bolchevique”...

Cabem aqui algumas citações de ferverosos militantes anti-comunistas com os seus “factos”: Em 1960 um antigo agente do serviço secreto britânico, de nome R. Conquest, sob os auspícios da Universidade de Harvard publica o seu livro "O Grande Terror", onde, afirma que o número das "vítimas de Staline" na URSS varia entre "5 e 6 milhões"...(??!!)...

Em 1980, o mesmo Conquest afirmava, a partir de “fontes fidedignas” que em 1939 haviam entre 25 e 30 milhões de prisioneiros políticos na União Soviética, e que em 1950 haviam 12 milhões de prisioneiros políticos... (??!!)

Quando na era Gorbatchev os arquivos até então não públicos do Comité Central do PCUS foram abertos à investigação, foi descoberto que o número de prisioneiros políticos em 1939 haviam sido de 454.000, e não os milhões e milhões anunciados vezes sem conta na campanha e histeria anti-comunista. Inclusivé por Gorbatchov que no chamado período da Perestroika e Glasnost, lança a monumental calúnia, e pedindo desculpa ao povo, de que o PCUS teria sido o responsável por 30 milhões de soviéticos, sobretudo entre 1924 e 1953”... O mesmo Gorbatchov, que contrariando a vontade do povo e Governo russos por altura do 60º Aniversário da derrota do nazi-fascismo, acha que as comemorações oficiais não devem referir o nome de Stáline... Mas mais uma vez neste plano, o nome de Staline pela vontade do povo russo, e pelo reconhecimento geral do seu papel, é um dos nomes grandes ao ladro de Alexandre Nevsky e de Lenine.

Contra Staline tudo foi dito e inventado, mas curiosamente, sobre as conspirações e tentativas de golpes palacianos, sabotagem da economia, da indústria, na defesa e segurança, acordos secretos de alguns dirigentes bonapartistas militartes como oi amigo secreto dos alemães, Tchukachevsky com as forças hostis à URSS, nada! Nada foi dito! Não balbuciam uma única palavra porque isso não está no baú de argumentos da burguesia e do imperialismo. Fica assim colocada para ser resolvida pela história esta equação simples: porque é que a burguesia e o seu sistema capitalista e imperial, fascistas, trotskystas, social-democratas, comunistas-ligth, reformistas, nutrem tanto ódio a Staline?

O desenrrolar e o desfecho da II Guerra Mundial tem a chave deste problema: o confronto entre dois sistemas antagónicos, com a vitória para o lado progressista e da humanidade face à besta imperial nazi-fascista. A vitória e a superioridade do Socialismo sobre o Capitalismo. A vitória do povo soviético dirigido, e com o seu próprio sacrifício, pelo Partido e o líder dos comunistas soviéticos, cuj consigna “Por Lénine e Stáline, Pela Pátria!”, mobilizou milhões de soviéticos, sempre com os comunistas na primeira linha de combate.

Das patacoadas inscritas no missal do anti-comunismo, podemos encontrar de tudo um pouco, incluíndo muita hipocrisia. Hiprocrisia que procurando de alguma forma agradar à burguesia, ao mesmo tempo faz o enaltecimento aos êxitos do Socialismo na URSS desde 1917, à vitória sobre o nazi-fascismo, mas sempre com a omissão de Staline e do seu real papel na construção do Socialismo e nas suas várias vitórias. Assim é, como alguns acompanham a propaganda burguesa e fazem na prática a apologia da campanha das forças reaccionárias contra o Socialismo e o Comunismo.

Fecho com uma citação de Stáline, e outra de um escritor francês que a ele se refere:

... “Quanto a mim, sou apenas um discípulo de Lenine, e o objetivo da minha vida é ser um digno discípulo dele. O marxismo não nega completamente o papel dos indivíduos excepcionais ou que a história seja feita pelas pessoas. Mas as pessoas podem fazer grandes coisas valiosas na medida em que elas sejam capazes de compreender bem as condições reais para poder alterá-las. Se eles não conseguem entender essas condições e procuram mudar de acordo com o pulso de sua imaginação, eles estão na posição de Dom Quixote”...

O escritor francês Henri Barbusse descreve a simplicidade do estilo de vida de Staline: Quando se pisa no primeiro piso se vê cortinas brancas nas três janelas. “Essas três janelas são do quarto de Staline. No estreito corredor tem uma capa militar pendurada num cabide sob um gorro. Além deste corredor, três quartos e uma sala de jantar. Os quartos estão decorados com simplicidade, como um hotel respeitável de segunda classe. O filho mais velho, Khashek, dorme à noite na sala de jantar em um sofá que se transforma em cama e os menores em um buraco estreito, uma espécie de nicho aberto… Staline ganha quinhentos rublos por mês, que é o magro salário mais alto entre os funcionários do Partido Comunista. Esse homem franco e brilhante é um homem simples. Ele não tem trinta e dois secretários como o Sr. Lloyd George. Tem apenas um. Stalin atribui sistematicamente, todos os êxitos a Lenine, quando uma parte importante do mérito pertence a si mesmo.”... (H. Barbusse, Stalin: a New Word Seen Through One Men, Londres, 1935, p. VII, VIII, 291, 294).

Sim, comprovadamente o anti-stalinismo é uma arma do anti-comunismo! A história inexoravelmente acabará por colocar Stáline na galeria dos homens excepcionais que marcaram todo o Século XX, e que deixam uma marca digna de reverência para sempre.



Referências bibliográficas:

BLAND, Will B. “Stalin: O mito e a Realidade. Um documento originalmente agendado para ser lido por Bill Bland na Conferência de "Luta Internacional: Marxista-Leninista" em outubro de 1999; Paris.

SOUSA, Mario. Mentiras sobre a União Soviética. Documento elaborado por Mário Sousa

ANDREIEVA, Nina: Anti-stalinismo, cavalo de troia do anti-comunismo no MCI, na segunda metade do Sec. XX


Alguns dos nomes referidos:

Bakunine, Mikail Alexandrovich (1814-1876) Revolucionário russo e um dos fundadores do Anarquismo. Membro da Direcção da I Internacional dos Trabalhadores, onde desenvolveu actividade profundamente cisionista e contra Marx e Engels. Foi expulso da Internacional em 1872.

Isaac Deutscher (1907 -1967) Jornalista e historiador polaco de origem judia. Escreveu muito sobre Trotsky e , simpatizante do trotskysmo . O Profeta Desarmado e O Profeta Desterrado.

Guiorgui Piatakov (1890 - 1937), membro "Oposição de Esquerda" dirigida por Trotsky. Abandonou a fracção trtskysta, e voltou a ter a confiança do Partido ingressando o Comité Central em 1934. Envolvido em acções de sabotagem e conspiração contra a segurança do Estado, é julgado e condenado em 1937. Confirmou nos julgamento a sua ligação a Trotsky, bem como, das ordens expressas de sabotagem na produção, fábricas e equipamentos.

Karl Berngardovitch Radek (1885 - 9 1939) Expulso do PC(b) sa Russia em 1927, é readmitido em 1930. Teve uma participação na construção da Constituição da URSS de 1936, ao mesmo tempo que participava em actividades fraccionárias e contra a segurança do Estado. Confessa os seus crimes no julgamento e a sua ligação ao “Centro Anti-Soviético Trotskysta”. Morre no seu período de prisão..

Ernest Mandel (1923-1995): nascido na cidade alemã de Frankfurt, tornou-se membro da IV Internacional (trotskista) em 1940, na Bélgica, onde os pais, judeus polacos, se tinham refugiado. Depois da II Guerra ingressa na central sindical belga FGTB e integra o Partido Socialista Belga, de onde é expulso em 1964. É um dos principais militantes antistalinistas, bem aceite e premiado pela burguesia internacional.

Alexander Soljenítsin (1918-2008) Escritor russo de nível medíocre, casado com a filha de um velho capitalista czarista. Até 1970, altura em que recebeu o Prémio Nobel de Literatura, teve um papel de peão “ocidental” nas suas produções literárias. Recrutado para a cruzada anti-comunista,foi expulso da URSS em 1974. Exilou-se nos EUA, e foi a “vedeta” intelectual do anti-comunismo nas “democracias” ocidentais. Foi um comprovado delirante e mentiroso na sua pretensa historiografia sobre o “terror na URSS”. Antes de morrer, defende a restauração de um novo império com as fronteiras semelhantes ao Império Russo de Alexandre III.

Alexander Nevsky (1220 - 1263). Príncipe que unificou os vários principados em torno do Principado de Vladimir contra os invasores, nomeadamente os exércitos dos gernanófilos Cavaleiros Teutónicos, no ano de 1242. A sua hábil diplomacia permitiu um acordo vantajoso para os povos eslavos, com o mongol Kublai Kan.


Janeiro de 2013

Luís Piçarra

Discursos Clássicos | Hugo Chávez - COP 15 (2009)