domingo, 31 de março de 2013

Poesia | Ary dos Santos - Retrato do Herói



Herói é quem num muro branco inscreve
O fogo da palavra que o liberta:
Sangue do homem novo que diz povo
e morre devagar de morte certa.

Homem é quem anónimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome fechado o corpo ao breve
instante em que a denúncia fica alerta.

Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo nem mártir nem soldado
Mas apenas por último indefeso.

Homem é quem tombando apavorado
dá o sangue ao futuro e fica ileso
pois lutando apagado morre aceso.

José Carlos Ary dos Santos

Música de Intervenção | Adriano Correia de Oliveira - Trova do Tempo que Passa



Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.
o vento nada me diz.

La-ra-lai-lai-lai-la, la-ra-lai-lai-lai-la, [Refrão]
La-ra-lai-lai-lai-la, la-ra-lai-lai-lai-la. [Bis]

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

[Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

sábado, 30 de março de 2013

Artigos de Opinião | Jorge Messias - A Globalização da Fome e da Pobreza

«O latifúndio no Brasil renovou-se e, hoje, administra um moderno sistema chamado agronegócio que controla terras e produção. Dados recolhidos no censo agropecuário de 2006 indicavam que o produto de 3,35% dessas unidades (todas acima dos 2500 hectares de extensão) corresponde a 61,57% do total obtido. No outro extremo, as herdades com menos de 100 hectares ocupavam 55,53% das terras aráveis» (Inácio Werner, quadro técnico católico, coordenador de projectos do Centro Burnier Justiça e Fé).


«A experiência do agronegócio brasileiro testemunha um novo colonialismo transnacional. Há grupos dominantes brasileiros em todos os países latino-americanos... Por exemplo, na Argentina, desde 2001 que um sem número de operações financeiras, fusões e aquisições, desloca 'activos' da burguesia nacional para a burguesia brasileira. Pode citar-se muitos exemplos: a aquisição da Pecom Energia pela Petrobrás; a compra da Quimes Alimentos e Bebidas pela Ambev; a absorção da Loma Negra (cimenteira produtora de metade do cimento argentino) pela Camargo Correia, etc., etc. Alguns exemplos de negócios, de entre centenas de outros deste tipo...»(Frederico Dala Firmino, «O novo colonialismo transnacional, 2010»).


«O Brasil bate todos os recordes na produção e exportação de alimentos. Mas o Brasil é hoje uma colónia americana e uma plataforma de exportação das transnacionais. A lição histórica mais importante que devemos retirar, do ponto de vista económico, político, social e cultural, é que se torna urgente romper, de vez, com o sistema capitalista e imperialista!» (Illaese/Goggle).


Digamos claramente: acabou-se a comédia do papa velho que dá lugar a um novo papa… Um folclore já visto. Falemos em...coisas sérias!

São conhecidas as dificuldades em que o capitalismo mundial se enredou. Um dos grandes problemas que se coloca aos banqueiros (se não o principal) consiste em constatarem que no sistema capitalista o dinheiro abunda mas a máquina da economia não produz. A continuar-se nesta situação, a derrocada final verificar-se-á dentro de muito pouco tempo. Por isso, um pouco por toda a parte, os novos e velhos ricos tentam imaginar formas para contornarem as dificuldades.

É o caso dos países da América do Sul, nomeadamente do Brasil, o seu Estado com maior superfície, o mais povoado, o mais rico em diversidade de matérias-primas; onde o fosso entre pobres e ricos é mais profundo, o sentimento religioso mais acentuado e a noção de unidade nacional e de pátria continuam bem vivas. Por outro lado, nunca sucessivas tiranias, a corrupção generalizada ou a vizinhança avassaladora do gigante norte-americano foram capazes de asfixiar o sonho popular de um futuro socialista. O Brasil é um espelho de contradições mas reflecte também as realidades da América Latina.

É num quadro tão mal esboçado aqui, mas real, que a internacional capitalista procura fazer avançar a sua tão desacreditada globalização. A fórmula Europa está esgotada. É preciso agora, para evitar o pior, reeditar o colonialismo com uma encadernação atraente. Afinal, a crescente riqueza do Estado brasileiro apenas se sustenta de uma parte mínima das potencialidades do país. O que se impõe, de imediato, é aumentar a exploração dos trabalhadores, acelerar o processo de concentração de capitais, vender ao estrangeiro, ao desbarato, «cortar» nas funções sociais do Estado e ter mão-de-ferro, revestida de veludo, no partido comunista e nos sindicatos.

Num panorama tão rígido é, sem dúvida, necessário recorrer às formações mais qualificadas da Igreja católica. Onde há luta de classes impõe-se que o capital se apoie na religião, o grande ópio do povo. Até no discurso que serve para enganar as massas e nas falsas promessas demagógicas, encontramos o maquiavelismo populista do Vaticano e da sua Companhia de Jesus. Defendem, como se sabe, que a pobreza é um mal necessário querido por Deus e que bem-aventurados são os pobres. Anunciam depois que num Mundo novo há uma Nova Igreja, sem se deterem a explicar que mistério é esse da Igreja dos pobres se colocar ao serviço dos ricos no poder.

Pelo que pudemos entender pelas informações que entretanto chegam, o agronegócio latino-americano é uma espécie de manual da globalização aplicado à economia neoliberal. Indirectamente, recomenda normas quanto à fome, ao desemprego, à pobreza, à nova escravidão, etc.

Um convite a uma nova leitura.


(Jornal "Avante", Nº 2052, 28 de Março de 2013)

Música de Intervenção | Adriano Correia de Oliveira - O Senhor Morgado



O Senhor Morgado, vai no seu murzelo
Todo empertigado, é um gosto vê-lo.
Próspero anafado, véstia alentejana,
Calça de riscado, homem duma cana.

Vai, todo se ufana, de ir tão bem montado.
E ela da janela, seja Deus louvado,
Seja Deus louvado,
Seja Deus louvado.

O Sr. Morgado, vai nas próprias pernas
Todo bambeado, tem palavras ternas.
Para cada lado, quando passa sente,
Que é temido e amado, fala a toda a gente.

Topa um influente, sou um seu criado.
Eleições á porta, seja Deus louvado,
Seja Deus louvado,
Seja Deus louvado.

O Sr. Morgado vai na sege rica
Todo repimpado, ai que bem lhe fica.
O Chapéu armado e a comenda ao peito,
E o espadim ao lado, que homem tão perfeito.

Deputado eleito, muito bem votado.
Vai para o Te-Deum, seja Deus louvado,
Seja Deus louvado,
Seja Deus louvado.

INSTRUMENTAL

O senhor Morgado vai na sege rica
Todo repimpado, ai que bem lhe fica.
O Chapéu armado e a comenda ao peito,
E o espadim ao lado, que homem tão perfeito.

Deputado eleito, muito bem votado,
E ela da janela, eleições à porta
Vai para o Te-Deum,
Seja Deus louvado.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Poesia | Ary dos Santos - Ecce Homo



Desbaratamos deuses, procurando
Um que nos satisfaça ou justifique.
Desbaratamos esperança, imaginando
Uma causa maior que nos explique.

Pensando nos secamos e perdemos
Esta força selvagem e secreta,
Esta semente agreste que trazemos
E gera heróis e homens e poetas.

Pois deuses somos nós. Deuses do fogo
Malhando-nos a carne, até que em brasa
Nossos sexos furiosos se confundam,

Nossos corpos pensantes se entrelacem
E sangue, raiva, desespero ou asa,
Os filhos que tivermos forem nossos.

José Carlos Ary dos Santos

Música de Intervenção | Adriano Correia de Oliveira - Lira


Morte que mataste Lira,
Morte que mataste Lira,
Morte que mataste Lira,
Mata-me a mim, que sou teu!
Morte que mataste lira
Mata-me a mim que sou teu
Mata-me com os mesmos ferros
Com que a lira morreu

A lira por ser ingrata
Tiranicamente morreu
A morte a mim não me mata
Firme e constante sou eu
Veio um pastor lá da serra
À minha porta bateu
Veio me dar por notícia
Que a minha lira morreu

quinta-feira, 28 de março de 2013

Poesia | Bertolt Brecht - Analfabeto Político




O pior analfabeto é o analfabeto político.

Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,
do peixe, da farinha, da renda, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.


O analfabeto político é tão burro que se orgulha e enche o peito dizendo que odeia
a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta,
o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista,
mentiroso, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.